Bandeira

Atacado por uma leve crise de afiloponia, doença congênita de que padeço há exatos 32 anos, tirei o dia para descansar e, na falta de alguém que me contasse uma mentira, decidi eu mesmo ler os jornais.

Nisso, acabei deparando com a notícia de uma americana que, vinda ao Pan, descreveu o Rio em seu blog da seguinte maneira: “A cidade inteira é toda de favelas. Os rios correm negros. Há vacas mortas ao longo das margens. Porcos e outros animais bebem a água suja”.

Ao lerem essas palavras, inúmeros brasileiros deixaram comentários mais desagradáveis que os do Galvão Bueno na página da atleta, que acabou desativando-a e pedindo desculpas pelo incidente. No que fez muitíssimo bem, digo eu.

Ora, por acaso, vocês conseguem imaginar um cidadão brasileiro viajando aos Estados Unidos e propagando na volta, irresponsavelmente, que eles são o país mais rico do mundo, que lá a maioria da população é branca ou, muito pior, que há uma Disney na Flórida?

Da mesma maneira, tentem figurar um turista retornando da Alemanha e tendo a procacidade de escrever que naquele país o analfabetismo é baixíssimo, as ruas são todas limpas ou, enfim, que lá faz muito frio e até, às vezes, neva. Absolutamente impensável.

Quem deu, portanto, a essa atleta o direito de vir aqui ao nosso país, que tão bem a acolheu — para se ter uma idéia, a moça não foi sequer seqüestrada nem levou um único tiro de fuzil, numa clara demonstração de nossa boa vontade — quem deu a ela, dizia eu, o direito de sair difundindo inverdades sobre a nossa pátria?

Para começo de conversa, dizer que no Rio de Janeiro só há favelas é de uma leviandade formidolosa. As pessoas instruídas sabem perfeitamente que no máximo noventa por cento da cidade são tomados por moradias desse tipo.

Quanto à afirmação de que os rios são poluídos, só nos resta rir, porque apenas um tolo pode desconhecer o fato de que as nascentes brasileiras, desde finais do século passado, não contêm uma única partícula de oxigênio, tendo sido o nosso o primeiro país no mundo a eliminar essa substância tóxica de suas águas.

E no que diz respeito a animais nas ruas, mortos ou não, que queria ela? Acaso em seu país os hambúrgueres são feitos com vacas vivas? E que espécie de criatura é essa, sem coração, de sentimento tão monstruoso e anti-ecológico que não consegue viver em harmonia com bois, porcos, ratos, baratas e outros animais dóceis e inofensivos?

Diante de tal alogia, nada restava aos brasileiros de bem, senão insultar devidamente a estadunidense. Afinal, é esse tipo de defesa patriótica que vem mantendo a nossa nação há tantos anos na senda do progresso irrefreável.

Ao contrário dos ignorantes que reivindicam melhorias na educação, na saúde ou na segurança pública, passando a falsa impressão de que há algo errado no país, esses internautas cervais preferiram evitar escapismos e lutar de frente contra quem de fato ameaça nosso bem-estar, como os estrangeiros, o ET de Varginha ou mesmo o Pé Grande.

Deixo aqui, portanto, registrada a minha solidariedade a eles. E muitos outros incentivos ainda daria, se não tivesse que ir, pois começou a chover e se não me apressar encontro minha rua alagada, às escuras, e posso acabar pisando num buraco ou caco de vidro, já que o lixo não vem sendo recolhido ultimamente.

Até mais, patriotas. E parabéns.