ACORDO ORTOGRÁFICO
Não há lógica na vida, não há lógica na gramática — coincidência, aliás, que não deixa de ter sua lógica. Alguém saberia me dizer por que o sujeito não pode falar “um de maio” ou “um de setembro”? “Primeiro de setembro”, corrige o interlocutor. “E trinta e um de setembro?” “Pode”. “De maio?” “Também”. “Um, não?” “Nunca”, conclui, indo cheirar seu rapé.
Assunto recorrente é a mudança ortográfica a ser implementada em 2010, segundo calendário oficial, e 2079, de acordo com os costumes de um lado e outro do Atlântico. Antes que perguntem, sou a favor dela. Quando menos, agora as legendas dos filmes portugueses por aqui terão grafia igual à dos livros de Saramago. E isso não é dizer pouco em termos de integração cultural e entendimento recíproco.
Não seria sincero, contudo, se afirmasse de antemão não sentir saudades de alguns aspectos do vernáculo atual. Por exemplo, “idéia”, que está prestes a perder seu acento. Uma idéia sem acento, a meu ver, será sempre defeituosa e talvez, nesse sentido, continue sociologicamente escorreita quando grafada por brasileiros e portugueses. Porém, tenho medo de nunca mais conseguir produzi-las sem o sinal ortográfico, o que, é provável, não afetará o mundo, mas me lançará cada vez mais para perto do reino mineral, a que já tendo por constituição própria.
Outro exemplo: “veem”, “voo”, “creem” etc. Sei de gente que, se não subia num avião sem tomar uma cartela de Lexotan, abdicará definitivamente do invento de Santos Dumont a partir da entrada em vigor do tratado. Sem falar no aumento da impiedade e da miopia entre nossos patrícios, aquele primeiro aspecto representando inovação drástica nos hábitos de nosso povo.
O trema, não, do trema não sentirei falta. Sempre o percebi como uma intrusão bárbara — germânica, para ser mais exato — em nosso idioma. E se fosse para adotar recursos da língua de Goethe, optaria por aquela sua capacidade de resumir a filosofia de Kant em textos com no máximo três ou quatro palavras.
Enfim, não adianta chorar sobre o diferencial derramado e o mais a fazer agora é nos realfalbetizarmos ou, no caso dos brasileiros, alfabetizarmo-nos a partir das novas regras. Do ponto de vista econômico, haverá sempre um lucro para as editoras, que, a partir da adoção do novo sistema, poderão explorar escritores aqui e lá sem custos adicionais. E para os autores também, que multiplicarão a fortuna inexcedível advinda dos royalties.
De resto, será mais uma transformação das inúmeras por que passou o português escrito no Brasil, sem que isso tenha representado até agora nenhuma catástrofe, como aumentar o índice de letrados ou de versos mal escritos.
Quer dizer, que venha o acordo. Dou meu apoio, repito. Assinemos. No que depender de mim, só preciso que me digam onde apor o polegar.

novembro 23rd, 2008 às 9:56
O trema quase ninguém usa, assim…naturalmente. E a língua evolui também, assim…naturalmente. Não precisa ser forçada. Prefiro as mudanças que acontecem naturalmente, por força de uso que consagra uma forma na língua. Quantas vezes houve reforma, pegou?
Sou contra a reforma ortográfica, ditada por interesse de editores.
Marconi, me passa seu e-mail.
Beijus,
novembro 24th, 2008 às 9:32
Ué, cadê o bando de veados dessas plagas: Franciel, Guga, Milton Ribeiro, Ramiro Conceição(Ops, eu não!)…
novembro 24th, 2008 às 12:14
Ainda bem que 2010 está longe pra dendeu(acertéi?)
novembro 24th, 2008 às 18:14
Senti uma mágoa nesse seu coração… Desapega!
novembro 26th, 2008 às 18:27
Que maresia da porra! Pelo visto, o senhor foi contaminado pelos eflúvios, né?