Arte

Dizem alguns místicos e supersticiosos que, assim como a moral pública e o hábito de desejar bom-dia aos vizinhos, houve um tempo em que existiu também no mundo algo que levava o estranho nome de “arte”.

De acordo com esses crentes — cuja ala mais radical, imaginem, crê mesmo ter havido um dia jogadores de futebol no Rio de Janeiro e carnes revestindo os ossos da Dercy Gonçalves —, a “arte” era uma manifestação tipicamente humana, não sendo encontrada no mundo animal. Salvo, talvez, no caso de um ou outro político que a ela se dedicava.

Ainda segundo os crédulos, o fim último da “arte” seria provocar no público que dela gozava um sentimento de beleza ou prazer intenso que adviria da sublimação da energia sexual, processo semelhante ao que deu origem à TV no quarto e ao tricô.

Como em outras teorias do gênero, os esotéricos defendem ter a “arte” surgido na Grécia Antiga. Seriam ramos dela a “pintura”, a “escultura”, a “literatura”, o “teatro”, a “música” e a “pederastia”.

Sendo que, de todos, a “pederastia” era o único que impedia o artista de se sentar no dia seguinte. E, ao contrário dos demais, ainda subsiste, apesar de mais complicada após a substituição da túnica pela calça jeans.

A se crer nos espiritualistas, a “arte” teria sido cultivada até mais ou menos o final do século XIX, meados do século XX, quando deu lugar a outras formas de expressão, ainda hoje de objetivo não definido, qual sejam colocar fuscas no teto do Masp, jogar tintas aleatoriamente em quadros, inventar e aplicar vocábulos em frases sem encadeamento lógico, pop music e peças de Gerald Thomas.

Por incrível que possa parecer a alguém mais instruído, os devotos fazem supor que a capacidade de análise dos antigos era parcíssima, pois não utilizariam no julgamento da chamada “obra de arte” conceitos tão científicos e relevantes quanto “rebelde”, “revolucionário”, “inovador”, “moderno” ou “antenado”, mas simplesmente definições tão pobres quanto “belo” ou “feio”.

No entanto, apesar dos esforços dos cenobitas, especialistas e acadêmicos das mais diversas áreas descartam, por ridícula, a possibilidade de ter existido algo com as características dadas acima. E, tomando como parâmetro a sociedade atual, afirmam categoricamente que, até hoje, o que a humanidade conseguiu produzir de mais parecido com uma suposta “arte” foi mesmo, sem sombra de dúvida, a masturbação.