AUTORIA
Muito se glosa (com “l”, que é quando se glosa mais glostoso) a questão…
Muito se glosa — dizia eu, antes de ser interrompido pelo idiota que escreve os parênteses deste blog e que, tão-logo o encontre na região de minha psique onde se oculta há mais de trinta anos, extirpá-lo-ei com mesóclise, Id e tudo — a questão do…
Perdão. Exaltei-me. Muito se glosa, repito (se repetir mais uma vez, eu volto), deixando no parágrafo anterior o segundo imbecil da variada fauna de pascácios que em minh’alma habita, adepto do travessão, e que igualmente me impede de prosseguir com o texto, o que me…
Bom, esqueçam. Dizia que muito se glosa (eu avisei! O sujeito usa um recurso literário pobre como esse do monólogo interior, que impregna horrivelmente nossa baixa modernidade e ainda tem coragem de chamar alguém de idiota! E outra: fique sabendo que a azêmola, no caso, inserida em minha mente, é você, e não o contrário)…
Relevem. Sigamos, por favor. Quero apenas dizer que muito se glosa — coloco novamente meus dois travessões de prosa nessa conversa de basbaques para informar que a vítima, aprisionada há exatos trinta e três anos no interior de duas bestas, sou eu, e que me penitencio por isso todos os dias, pois devo ser um caso clínico raro de esquizofrênico com tripla personalidade; além do mais, aproveito para deixar registrado: “baixa modernidade”, em se tratando de Brasil, é redundância — que muito se glosa a…
Desisto. Escrevo o texto amanhã, quando não esquecerei de tomar meus cem miligramas de água, diluídos em um copo de fluoxetina. Uma pena, porque só queria afirmar que muito se glosa (voltei. “Baixa modernidade” é redundância? E desde quando um sujeito adepto do travessão, que não passa de um hífen filiado ao PSDB, pode dar pitaco em questões de estilo? Era o que faltava! Além da obrigação de conviver com dois ignorantes, dotados de um grau de parasitismo que faria a alegria de Plauto, ainda receber lição artística. Culpa de Freud, que inventou o inconsciente!)…
Ingratidão sua. Não fosse o austríaco, vocês não existiriam. Ou surgiriam, no máximo, à orelha dos livros de Virginia Woolf. Sem falar que eu teria já concluído esta crônica, cujo assunto, agora, até esqueci.
— Esqueceu porque tem uma péssima memória. No que dependesse de você para cobaia, Skinner amargaria fracasso completo como cientista.
(Nisso ele tá certo, Nicomar. Memória como a sua, convenhamos, seria difícil de encontrar entre rizópodes com Alzheimer.)
Você acabou de me chamar de Nicomar ou, além de estar encarando uma evidente crise de criatividade, ascendi na hierarquia das moléstias mentais e passei, finalmente, por méritos próprios, de neurótico a psicótico?
(Nicomar, claro. Você é uma cópia suja, o avesso de mim mesmo, que me oprime, me asfixia.)
— Nos asfixia, se me permite. É um castrador. O que, aliás, tem um mérito: o de vingar os eqüinos. Trata-se do primeiro cavalo castrador de que se tem notícia.
(Ha, ha. Boa! Não sabia que você tinha senso de humor.)
— Nem poderia. O cara cassa minha originalidade.
(É um truão, um tirano, um falsário, posando de Marconi por aí. Olha, tô começando a achar que o nosso é um caso oposto ao do amor romântico: somos duas almas separadas por um único corpo.)
— Prato cheio para Sófocles ou Shakespeare. Até porque há também preconceitos de sangue e família que dificultam nossa união.
(Sangue e família?)
— Sim. Sangue que não reflui para o cérebro de Nicomar e família dos eqüídeos, à qual ele pertence.
(Ha, ha, ha. Você é ótimo. Me diz… Quem sabe a gente não se encontra um dia desses.)
— Claro, por que não? Temos muito em comum. Além, óbvio, do destino de matéria escura.
(Destino de matéria escura… Não entendi.)
— Preencher o vácuo. Ou seja, a caixa craniana de Nicomar.
(Ha! Genial.)
— Bom, anota aí meu telefone. É o três, dois… uhmmmm… mmmmnnn…. hummm…
(Três, dois, um… Quê?)
— Uhmmm… mmmmnn… hmmmm!…
(Como? Não escuto.)
— Mmmmnn!… hmmnnnn!…
Muito se glosa a questão do controle do autor sobre sua escrita e, principalmente, a vida de suas personagens. Quanto a minha experiência, pelo menos, posso garantir que, apesar de o processo criativo ser, em grande medida, autônomo, e de nem sempre se poder contar com a realização de objetivos preestabelecidos, o fundamental em uma obra é determinado, conscientemente, pelo escritor, que abafa as vozes importunas quando deseja e concebe todo o ritmo da narrativa, decidindo, por exemplo, qual a melhor hora para pôr o ponto final em um texto.

setembro 25th, 2008 às 9:47
Marconi,
por que você anda roubando os textos de Serbon?
Marconi Leal Reply:
setembro 26th, 2008 at 11:11
(Roubou porque Nicomar é um falsário, Franciel. Trata-se de um pulha da pior qualidade, um sujeito sem princípios morais.)
— Sem fins também, diga-se de passagem. E aquele sotaque pernambucano dele?
(Ha, ha, ha. Asqueroso!)
setembro 25th, 2008 às 10:47
Afe, com esse barulho todo não consigo glosar não! E o único Skinner que eu conheço é o do Arquivo X. A verdade está lá fora!!!
Marconi Leal Reply:
setembro 26th, 2008 at 11:13
— Se a verdade está lá fora, Edu, uma questão se impõe: eles trabalham no sistema de delivery? E mais: se sim, cobram taxa de entrega?
(Esse cara é o máximo, rapaz…)
setembro 25th, 2008 às 12:05
Genial, Marconi. Estou lendo o último livro do Philip Roth e ele brinca um pouco sobre a tal autonomia dos personagens sobre o autor, como este não pudesse fazer o que quiser, até mandar o dono do blog tomar no cu.
E é o que faço, pois assim qui-lo.
Marconi Leal Reply:
setembro 26th, 2008 at 11:21
Ribas, depois de ler uma dezena de resenhas e perceber que a mais moderada era a de Kakutani, concluí que o livro não deve ser lido. Agora, quanto à questão da autoria, a verdade é que o controle é absolutamente meu, até porque mant…
(Ha! “Completamente minha”! Te enxerga, ó pilantra. E obrigado pelos cumprimentos, Milton.)
— É, MIlton, a diretoria agradece. Apesar de gostar de Philip Roth, você parece ser um camarada gente boa.
setembro 25th, 2008 às 12:16
espero que não haja ponto final pros seus 3 eus. Só 3?
Espetacular!
Marconi Leal Reply:
setembro 26th, 2008 at 11:29
Meu terapeuta espera a mesma coisa, Guga.
(Ué? Ele é o único sujeito que conheço que precisa de garfo e faca para ingerir remédio psiquiátrico, e ainda tem terapeuta?)
— Tem. Conheço o cara. Trabalha no jockey. Excelente tratador de cavalos.
setembro 25th, 2008 às 13:43
…este texto era meu ou do Fausto Wolff?
Marconi Leal Reply:
setembro 26th, 2008 at 11:31
(Era meu, Serbão.)
— Nada disso. Meu.
(Tem graça. Meuzinho.)
— Meu.
(Meu!)
— Meu!
setembro 25th, 2008 às 14:16
Não, não, não, Serbão: o texto era meu!
O Nico e o Mar endoidaram!!!
Marconi Leal Reply:
setembro 26th, 2008 at 11:58
(Quem é esse?)
— Romário Cianocce. Posa de poeta, mas é outro falsário, parece. Sufoca o Ramiro Conceição que há dentro dele.
(Nossa!)
setembro 25th, 2008 às 14:32
Vcs 3 ficam na maior glosação, mas teimam em não glosar sobre a grosa de cervas que grosarão com a grossa grosa - e de graça- dia destes.
Continuem a fazer grosa da glossa daquele inseto falecido descoberto na grota de um jornaleco carioca, continuem…
A graça é glozar. Ou não?
Marconi Leal Reply:
setembro 26th, 2008 at 12:21
(Pronto. Era o que faltava. Um discípulo de Cruz e Souza!)
— Sério, seu, sons sucessivos assim são símbolos soltos, sem sentido. Sou sincero censor desse sueto simbolista.
(E usa trocadilhos, ainda por cima.)
— Se sabe disso, Shakespeare soca sua sepultura sem cessar.
setembro 26th, 2008 às 15:10
Tô glosando até agora. Acho que vou ter que tomar um antibiótico.
Marconi Leal Reply:
setembro 28th, 2008 at 19:49
Melhor rezar uma ave-maria. Milagres assim não acontecem todo dia.
setembro 27th, 2008 às 0:57
Pôxa, achei sensacional este texto!
(É claro, você é realmente pouco exigente…)
_ Gente! Olha o vexame, não combinamos que nós três iríamos concordar dessa vez, inclusive com o uso do travessão??
Marconi Leal Reply:
setembro 28th, 2008 at 19:53
Ah, então os dois estão com você? Agora tudo se explica. Tava estranhando a folga e já tinha encomendando um ramalhete de flores para mandar a meu psiquiatra.
setembro 27th, 2008 às 13:26
“Seu” Marconi ou “seu” Nicomar, hoje é sábado, portanto:
A CONVERSÃO
by Ramiro Conceição
Daquela vez, senhoras e senhores,
chegara a hora de um dos maiores,
porque acabara de adentrar à tenda
- dentre os batuques dos atabaques -
aquele que compreendera claramente
a boçalidade total da História humana.
Por isso, em um ato meigo de Amor,
Iemanjá o cobriu com um Manto Azul.
Por isso, alegre, a Natureza o enfeitou
com os Raios Cósmicos de Xangô,
com as Matas Livres de Oxossi,
com as Águas Doces de Oxum,
com as Sete Cores de Oxumarê,
com as Lanças Guerreiras de Ogum
e com os Vulcões Abissais de Exu.
Sim,
senhoras e senhores, daquela vez,
Fiódor Dostoiévski se transmudou,
quando apareceu o Resplandecente
― Oxalá-Tupã-Obatalá-O-Sem-Nome ―
Transfigurado ― no Filho do Homem.
FILHOS DO SOL
by Ramiro Conceição
Lembra - se daquela vez
em que inocentes caminhávamos livremente?
Lembra-se do quanto — nós — brincávamos?
Lembra-se da felicidade com que brilhávamos?
Lembra-se daquela vez em que brigamos?
Lembra-se daquela vez em que voltamos?
Lembra-se do cuidado com que nos olhávamos?
Lembra-se daquela vez em que morremos?
Do quanto choramos? Do quanto oramos?
Lembra-se da última vez em que nos amamos?
Pois é!
Éramos, somos e seremos
sempre ― os Filhos do Sol.
TEMPO DOS SERES
by Ramiro Conceição
Além das flores, quem és?
Sou as cores.
Além das cores, quem foste?
Fui amores.
Além de amores, quem serás?
Serei o que deste e dás.
Além das flores, quem eras?
Era as cores.
Além das cores, quem foras?
Fora amores.
Além de amores, quem serias?
Seria o que deras e davas.
Além das flores, quem sejas?
Seja as cores.
Além das cores, quem fosses?
Fosse amores.
Além de amores, quem fores?
For aquilo que desses e dês.
Além das flores — sê.
Além das cores: seres
sendo, sido, além dos pecados idos.
TEMPESTADES
by Ramiro Conceição
Há seres
que são
tempestades
a lavar os
ladrilhos
das Cidades.
Marconi Leal Reply:
setembro 28th, 2008 at 19:55
(Ele de novo.)
— Ignora, ignora.
setembro 27th, 2008 às 19:56
Que conflito!! Eu não tenho esse problema (mas também não sou escritora) e os personagens que de vez em quando crio, são freelancers. Nesta autonomia, nem sempre alcanço o personagem. Na verdade, é necessário exercitar o personagem para que ele esteja em sincronia com a criatividade. Muito se glosa na obscuridade das idéias, quando tudo flui entre criatura, criatividade e criador. Beijus
Marconi Leal Reply:
setembro 28th, 2008 at 19:57
(Mmmmmmn!…)
— Humnnnnn!…