Visita2

Sendo um sujeito calmeirão e até mesmo búdico, não seria o encontro com pessoas que não conhecíamos de perto que me deixaria afetado. Estava absolutamente tranqüilo e, como qualquer pessoa normal, durante o percurso de táxi comia os cadarços dos sapatos para aliviar um pouco a tensão.

— Tem certeza que tu tá bem? Não quer desistir? A gente inventa uma desculpa — disse minha consorte tão-logo entramos no elevador, ao perceber que a minha catadura faria a alegria de um pintor expressionista.
— Desistir? Mulher, sou bravo, sou forte, sou filho do Norte.
— Uhm-hum. E certamente é uma manifestação da coragem tupi o sujeito enfiar todos os dedos da mão na boca pra chupar, né?
— Hhmtá enfmmhando ahmoca? Digo, quem tá enfiando a mão na boca? Tô coçando a garganta, só isso. Queria que eu coçasse a garganta como? Por fora? É cada uma!
— Sei. E as tuas pernas tremendo são sem dúvida uma maneira de coçar os joelhos através do atrito.
— Será que você não percebe que isso é do movimento do elevador?
— Ah, havia me esquecido! Turbulência, né?
— Não discuto com quem não tem conhecimentos apropriados de Física…
— Que injustiça você dizer isso. Pois se eu casei com o próprio princípio da inércia! Olha aí, chegamos.

Quando a porta se abriu, surgiu à minha frente um fenômeno que talvez a parapsicologia ou um mitólogo expliquem, mas que levei algum tempo para compreender: era um paranaense mais baixo do que eu. Naquele instante, redimi várias gerações de nordestinos.

— Oi, tudo bom? — falou meu amigo, gentilmente.
— Tomates sobre tijolos fúlgidos — respondi, no mesmo tom.
— Ahn?
— Boa noite — tentou ajudar minha mulher.
— Oi! Você é a…
— Ela? — interrompi. — Desculpa a falta de educação. Ela é a… obviamente a… a… Quem é você mesmo?
— Quanto suor! Ele tá sentindo alguma coisa?
— Por enquanto, não. Mas espera só até a gente chegar em casa…

Entramos e nos sentamos no sofá. Meu amigo apresentou sua bela esposa. Lembro de que o vinho foi servido. Lembro de ter tomado um gole. Se não me engano, cheguei mesmo a tomar outro gole. Quanto ao terceiro não estou bem certo, pois daí em diante — maldita arquitetura moderna — alguém pisou acidentalmente no slow motion da sala e tudo ficou lento como o raciocínio da Angélica.

Recordo vagamente do meu amigo entrando e saindo da cozinha que, ao que tudo indicava, estava pegando fogo, da minha amiga algo espantada enchendo o meu copo de cerveja que, segundo os santos preceitos de Esculápio, eu entornava de mistura com o vinho e, sobretudo, da minha mulher me dando ligeiros cutucões e menos discretos beliscões sempre que eu abria a boca.

Pouco depois, talvez porque o reverse angle do cômodo foi acionado, tudo começou a girar. A última coisa de que me lembro foi de ter virado para minha mulher para dizer, altivo: “Aha! Você não entende tanto de Física? Pois explique essa, agora!”

O que teria certamente falado, me vingando a contento de suas tiradas engraçadinhas, caso minha língua não houvesse sido acometida por uma repentina acinesia que me deixava relativamente parecido com o Nerso da Capitinga. Isso, quanto ao aspecto externo, posto que internamente sentia-me mais como um intelectual da USP: era como se não tivesse cérebro.