BEM-SUCEDIDA VISITA A UM CASAL DE AMIGOS VIRTUAIS (ÚLTIMA DOSE)
Acordei no dia seguinte me sentindo um Zeus. Não atirava raios nem tinha superpoderes, mas em compensação a dor na minha cabeça era tal que tinha certeza de que meu crânio rebentaria a qualquer momento e dele nasceria um deus olímpico. Desnorteado, tinha a persistente impressão de ter sido lançado para fora do Matrix. Lá no teto, de onde me fitava de cabeça para baixo, minha alma cantava, sarcasticamente, afetando olhares meigos: “Ó pedaço de mim, ó metade apartada de mim”…
Estava na dúvida se vomitava ou se tomava uma providência menos drástica, como cortar os pulsos, quando dei pela presença da minha mulher sentada ao meu lado na cama, numa atitude tão simpática quanto a de uma atendente de guichê de repartição pública. E subitamente se abateu sobre mim um sentimento de culpa maior que o herdado por toda a descendência de Set.
— E então? — perguntei, alarmado. — F-foi tudo bem?
— Ótimo — respondeu ela, sem mover os lábios. — Não poderia ter sido melhor.
— S-sério? Sério, mulher, ou é ironia?
— Sério. Quer dizer…
— Quê? Não me poupa!
— Teve aquela questão dos gatos, né?
— Gatos? Que gatos? Eles tinham gatos?
— Tinham. Mas creio que agora só têm “gato” mesmo, no singular.
— Eu matei um dos bichinhos?!
— Matar, matar, não. Apenas feriu mortalmente.
— Pisei num deles sem querer?
— Quase. Mordeu um deles querendo.
— Ai!
— Mas com razão, viu? Eram uns bichos muito egoístas. Imagine que não queriam deixar de jeito nenhum você provar da ração deles!
— Não me diga que eu… eu co-comi a… Putz, que horrível!
— Horrível? Que nada! Você adorou. Se até lambeu os restos do chão!
— Ai! Mas… mas afora isso, quer dizer, tudo normal?
— Tudo. Pelo menos até você limpar a boca suja de vinho na toalha de mesa que tinha sido presente do JK à família, tava tudo perfeito.
— Bem, podia ser pior… Sei lá, eu podia ter limpado o pinto ou a…
— Não, não. O pinto você limpou no guardanapo, como qualquer pessoa civilizada.
— Pára! Pára, muher!
— Ué? Não quer ouvir sobre a instigante brincadeira do lançamento de CDs do anfitrião pela janela do nono andar?
— Não, pelo amor de Deus, chega!
— Nem sobre os belos retoques de chantilly que você deu num Cícero Dias?
Neste ponto, sentia-me um Machado de Assis. Afinal, eram tais as minhas contorções, que estava prestes a cair fulminado por um ataque de epilepsia.
Então, arrependido do comportamento da noite anterior e consciente do mal que havia causado, peguei da mão dela, resoluto, e pronunciei as únicas palavras que cabiam a um homem de brio que ainda pretendia salvar, não importa a que preço, sua maculada dignidade.
— Escuta, mulher — sussurrei, solene como um coro grego —, tomei uma resolução. Agora é sério, acredita. Chega de passar vergonha. Prometo, mulher, eu prometo — ouve o que te digo, por tudo o que há de mais sagrado: nunca mais, em toda a tua vida, tu vai me ver tomar novamente um antialérgico.
E é preciso que se diga: desde então venho honrando fielmente a promessa.

agosto 9th, 2007 às 6:08
genial!! nem sei quantas vezes fiz esta promessa… antialérgico é um perigo…..
agosto 9th, 2007 às 13:18
pode ter sido o chantilly
agosto 9th, 2007 às 13:22
Marconi, vir aqui é certeza de soltar gargalhadas. Beijocas
agosto 9th, 2007 às 15:17
Pessoa de fibra, vou te convidar pra um jantar aqui em casa, pra provar que acredito no juramento
:))) Abraço, Marconi.
agosto 9th, 2007 às 15:36
James, seu alucinadão!
Lá em casa esta cena se repete toda segunda de manhã.
Grande abraço.
agosto 9th, 2007 às 16:09
Malditos antialérgicos!!!
agosto 9th, 2007 às 18:19
Olá Marconi,
Bem que pensei que tinha mais coisa nesta história, três drinquezinhos não fariam tanto.
E já que apareceu o antialergico descarta a possibilidade dos anfitriões…, um trequinho animante na sua bebida pra animar sua visita.
abraço
agosto 9th, 2007 às 18:25
Marconi,
foi mal, exagerei um pouquinho, sem querer, ao aumentar a dose ingerida, foram goles e não drinques.
inté
agosto 9th, 2007 às 18:34
Se está tudo explicado, seu amigo já pode retirar as acusações na delegacia, né? Povo mais sem humor…
agosto 10th, 2007 às 21:04
Taí, gostei dessa história, Seu Moço. Você continua escrevendo direitinho. Rapaz de talento. Você sonha em ocupar que cadeira na Academia Brasileira de Letras? …rs… Adoro teu texto, viu?
Beijo grande.
agosto 13th, 2007 às 23:48
Putz!
Eita antialérgicozinho da muléstia!