Visita3

Acordei no dia seguinte me sentindo um Zeus. Não atirava raios nem tinha superpoderes, mas em compensação a dor na minha cabeça era tal que tinha certeza de que meu crânio rebentaria a qualquer momento e dele nasceria um deus olímpico. Desnorteado, tinha a persistente impressão de ter sido lançado para fora do Matrix. Lá no teto, de onde me fitava de cabeça para baixo, minha alma cantava, sarcasticamente, afetando olhares meigos: “Ó pedaço de mim, ó metade apartada de mim”…

Estava na dúvida se vomitava ou se tomava uma providência menos drástica, como cortar os pulsos, quando dei pela presença da minha mulher sentada ao meu lado na cama, numa atitude tão simpática quanto a de uma atendente de guichê de repartição pública. E subitamente se abateu sobre mim um sentimento de culpa maior que o herdado por toda a descendência de Set.

— E então? — perguntei, alarmado. — F-foi tudo bem?
— Ótimo — respondeu ela, sem mover os lábios. — Não poderia ter sido melhor.
— S-sério? Sério, mulher, ou é ironia?
— Sério. Quer dizer…
— Quê? Não me poupa!
— Teve aquela questão dos gatos, né?
— Gatos? Que gatos? Eles tinham gatos?
— Tinham. Mas creio que agora só têm “gato” mesmo, no singular.
— Eu matei um dos bichinhos?!
— Matar, matar, não. Apenas feriu mortalmente.
— Pisei num deles sem querer?
— Quase. Mordeu um deles querendo.
— Ai!
— Mas com razão, viu? Eram uns bichos muito egoístas. Imagine que não queriam deixar de jeito nenhum você provar da ração deles!
— Não me diga que eu… eu co-comi a… Putz, que horrível!
— Horrível? Que nada! Você adorou. Se até lambeu os restos do chão!
— Ai! Mas… mas afora isso, quer dizer, tudo normal?
— Tudo. Pelo menos até você limpar a boca suja de vinho na toalha de mesa que tinha sido presente do JK à família, tava tudo perfeito.
— Bem, podia ser pior… Sei lá, eu podia ter limpado o pinto ou a…
— Não, não. O pinto você limpou no guardanapo, como qualquer pessoa civilizada.
— Pára! Pára, muher!
— Ué? Não quer ouvir sobre a instigante brincadeira do lançamento de CDs do anfitrião pela janela do nono andar?
— Não, pelo amor de Deus, chega!
— Nem sobre os belos retoques de chantilly que você deu num Cícero Dias?

Neste ponto, sentia-me um Machado de Assis. Afinal, eram tais as minhas contorções, que estava prestes a cair fulminado por um ataque de epilepsia.

Então, arrependido do comportamento da noite anterior e consciente do mal que havia causado, peguei da mão dela, resoluto, e pronunciei as únicas palavras que cabiam a um homem de brio que ainda pretendia salvar, não importa a que preço, sua maculada dignidade.

— Escuta, mulher — sussurrei, solene como um coro grego —, tomei uma resolução. Agora é sério, acredita. Chega de passar vergonha. Prometo, mulher, eu prometo — ouve o que te digo, por tudo o que há de mais sagrado: nunca mais, em toda a tua vida, tu vai me ver tomar novamente um antialérgico.

E é preciso que se diga: desde então venho honrando fielmente a promessa.