BRAVO, FORTE, FILHO DO NORTE (3)
A última vez que havia flexionado um músculo tinha sido para cortá-lo em pedaços e atirá-lo no feijão, juntamente com outras carnes bovinas. Da mesma forma, havia levado minha mão ao solo apenas uma vez nesta década e, ainda assim, para apanhar uma cédula de cinqüenta reais — o que me rendeu uma dor na coluna e me deixou uma semana de cama, mais paralisado que o cabelo da Tônia Carrero.
Foi com essa hercúlea disposição que me agachei e, heroicamente, iniciei minha contagem:
— U… hu… huu… um! — falei, emocionado, ao fim de meia hora.
E é certo que, voluntarioso, teria chegado naquele mesmo dia ao “dois” e, quiçá, ao “três” se, provavelmente por puro romantismo, meus braços não tivessem se recusado a sustentar meu peso, deixando que desse um violento beijo de língua no chão.
Ao tentar me levantar, logo percebi que o motim dos braços havia se transformado em revolução e que, se bem os membros do meu corpo não estivessem dispostos a derrubar a Bastilha, ao menos a bacia e o fêmur haviam saído do lugar. Em suma, não conseguia me mexer.
Vendo meu desespero, minhas contrações de dor e que meu rosto imóvel tinha o belo colorido da fase azul de Picasso, o professor perguntou, em pânico:
— Quer que eu chame um médico?
— Ão ecisa — falei. — Asta amar os ombeiros.
Mas tanto não foi necessário. Com alguma paciência, muito jeito, certo cuidado e a ajuda de um macaco hidráulico, dentro em pouco ele me pôs novamente de pé — relativamente zarolho e maravilhado por ver tantas estrelas às três horas da tarde.
Então, espalmou a mão à frente do meu rosto e perguntou:
— Consegue ver quantos dedos tem aqui?
— Claro que não. Você tá de sapato, ora essa! — falei indignado, sem conseguir levantar a cabeça, com uma postura corporal semelhante à do Mestre dos Magos.
Ele me trouxe um copo d’água, me fez sentar numa cadeira e, após me dar uns tapas nas costas, voltei a respirar. Uma vez recuperado e sendo, por natureza, persistente, aproveitei para retomar os exercícios: corri para a porta, com a intenção de voltar o mais rápido possível para casa.
Ia já atravessando o umbral, quando o oitavo passageiro me puxou pela manga da camisa.
— É por ali — disse, apontando para um corredor.
— O Paraíso? — perguntei.
— Você já pode fazer os exercícios — continuou ele, sério. — Fale com a Rosicléia. Ela vai explicar tudo direitinho. Bem-vindo!
Achei admirável que, sendo ele recém-chegado à galáxia, as boas-vindas fossem dadas a mim. E, mais ainda, que houvesse se referido a exercícios, quando acabara de comprovar que seria mais fácil ensinar regras gramaticais ao Lula que me fazer elevar os cotovelos à altura da orelha.
No entanto, como o esforço para absorver oxigênio estivesse atrapalhando meu raciocínio que, de natural, já não é dos mais aguçados, me pus a andar na direção que ele havia indicado, sem prestar atenção a coisa alguma, a não ser à harmônica melodia que meus ossos produziam ao estalar.
E foi assim, intimorato, que entrei naquela que mais tarde apelidaria de Sala Torquemada, destinada à malhação.

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