Elephant Bike

Ao comprar a bicicleta, pensava que estaria me livrando do principal problema que vinha afetando a minha saúde nas últimas semanas: as reiteradas e infindáveis reclamações da minha mulher.

E, sendo mais inocente que a religiosa de Diderot, imaginava que a dificuldade, no que tangia à bicicleta ergométrica, se resumiria a enfrentar as pedaladas diárias. Eis que tenho tanta aptidão para o esforço físico quanto um concretista para escrever poemas.

Em todo o caso, achava que me desincumbiria da tarefa com relativa facilidade. Afinal, sou brasileiro há 32 anos. E, como todos sabem, a bicicleta ergométrica é igual ao Estado nacional: muito cara, não sai do canto e serve apenas para cansar o usuário. Já estava, portanto, habituado.

No entanto, logo percebi o meu engano e me dei conta de que, se as pessoas chegam a perder calorias no trato com este infernal aparelho - que, a exemplo de um discurso do FHC, não leva a lugar algum -, isso se deve única e exclusivamente ao fato de que ele vem desmontado.

- Ué? E cadê os montadores? – falei, olhando para a caixa fechada que os entregadores, com um sorriso sarcástico e após fitar minha barriga, deixaram na sala.
- Pelo preço que a gente pagou, tu ainda queria que eles montassem? – retrucou minha mulher, algo impaciente.
- Pelo preço que a gente pagou, o mínimo que eu esperava era que eles montassem e pedalassem as primeiras trinta horas. Então, cadê o botão?
- Que botão?
- O que a gente aperta e a bicicleta se automonta.

Sem dizer absolutamente nada, ela pôs uma cara tão simpática quanto a de um samurai com prisão de ventre e me apontou a caixa de ferramentas. Demorei a entender o que estava insinuando, por três razões:

Primeiro, porque, como comprova a ciência, o álcool destrói nossa capacidade de raciocínio. Segundo, porque o manuseio de ferramentas é algo tão simples para mim como a leitura de “Ulysses” em tradução alemã. E terceiro, porque… Bom, terceiro, não me lembro, afinal o álcool também acaba com a memória e a concentração.