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Minha guerra com a bicicleta ergométrica foi verdadeiramente titânica. E a maior prova disso é que, a exemplo de Urano, também eu quase perdia minha genitália ao ser acertado por um golpe baixo de guidom.

No entanto, porque pessoa brabosa que não se deixa intimidar pela evidente superioridade técnica do adversário, em apenas três horas de dura batalha, tendo perdido somente parte de um dedo e o senso de ridículo, consegui submeter o fementido aparelho.

Assim, levantei-me do solo mais orgulhoso que cinco Zé Dirceus e, trauteando a musiquinha de “Rocky - Um Lutador”, virei-me para minha mulher, de peito estufado e sorriso tão largo quanto o rombo nas contas públicas:

- Perfeito, hein? Que tal? Perfeito, ahn?
- Sim – respondeu ela, impaciente. E completou: - Sobretudo para o curupira.
- Que curupira? Por que curupira?
- O selim tá apontando pro lado contrário, Marconi!
- E daí? Tu também reclama de tudo, mulher!

Era verdade, companheiros. Da maneira como foi montada a desgraçada geringonça, a menos que a pessoa fosse um grande místico e tivesse bem desenvolvida a visão do terceiro olho, seria impossível pedalar mirando à frente.

Senti, portanto, que aquilo era um chamado à fé. Afinal, no que dependesse de mim, seria mais fácil conversar com uma sarça ardente ou duas do que me prontificar a encarar nova lida com as ferramentas.

- Você vai deixar isso assim?
- Ué? E qual é o problema? Nunca ouviu falar em back spinning?
- Back spinning? É “torcicolo” em inglês?
- Quanta ignorância! Isso é moda nas academias agora, mulher. A pessoa pedala de costas.
- Sei. E bate as asas pra se equilibrar, né?
- Você não confia em mim?
- Pergunta retórica não vale.

De fato, o único inconveniente de pedalar com o selim posto do lado contrário é o fato de que, dessa maneira, não há onde se segurar. Mas, um bom atleta não se deixa intimidar por minigâncias de tal monta.

De maneira que, para mostrar a ela toda a minha perícia e minha cirquedusoléica porção acrobática, respirei fundo, rezei ao Bom Jesus dos Agnósticos, assentei-me galhardamente na máquina e encarei de frente o desafio.

E como não sou homem de encarar de frente apenas desafios, a verdade é que, no minuto seguinte, encarei de frente também o chão.

Aqui, abro um parêntese para fazer as exéquias atrasadas do meu bisavô. Porque a verdade é que, se aquele homem de espírito aventureiro não tem vindo da Síria para se casar no Brasil e, modestamente, ao longo das gerações, não tem me passado o glorioso nariz árabe de que sou portador, teria definitivamente esfacelado o rosto no solo.

Contando, contudo, com o anteparo nasotrombal, me vi salvo. E prometo a vocês que me dedicarei a consertar a bicicleta e iniciar-me-ei na prática masoquista de pedalá-la, em breve. Muito em breve. Tão-logo consiga voltar a ler o jornal sem precisar que alguém o segure aberto a dois metros de mim.