CORRESPONDÊNCIA ENTRE IRMÃOS (CONTINUAÇÃO)
Abobado diante de meu linguajar pertinaz, douto e que revelava, dentre outras coisas, uma experiência acabada da vida, extraordinária madureza e consciência alciônica da realidade (isso porque, para não humilhá-lo muito, não quis expor minha consciência betecarválhica nem mariabetânica da realidade, muito mais coerentes), o Sr. Branco Leone não me deu ouvidos (até porque é surdo de um) e insistiu:
Eu acredito no futuro (no meu, no seu, etc.) por absoluta falta de opção. E porque é mais divertido. Se não acreditasse, por que iria levantar da cama? E eu detesto ficar na cama(6).
Ofereço porque sei o que é falta de dinheiro(7). Essa doença fode tudo(7,4), e é besta demais pra ter tanto poder. Uma grana que dure um mês vira um bote pra se flutuar mais um pouquinho, até as coisas melhorarem(9). Nessas situações, a gente acaba pegando grana com quem(10,71) vai depois cobrar caro, e nunca mais se livra de dívida.
Não faça besteira(9,99). Quando quiser (eu ia dizer “precisar”, mas… bem…), tem uma grana aqui pra ajudar.
A parte do Don Corleone era brincadeira(10).
Abraço
Tamanha manifestação de carinho, compaixão e afeto poderia, talvez, amolecer Stálin ou outro indivíduo igualmente moleirão. Porém, mantendo a costumeira inflexibilidade emocional, rebati, viril qual fio de bigode de Chuck Norris:
Não tenho dinheiro, mas ainda conservo senso de humor: é claro que eu sei que a parte do Don Corleone era brincadeira! A de te chamar de cristão-novo também, caso não tenhas percebido(11). (Tá vendo, falou em dinheiro e a gente já fica cheia de dedos. Neste instante, estou com pelo menos uns 27 ou 30…)
Quanto ao oferecimento, não esperava outra coisa de você, sabendo quem você é(12a). E sei que é sincero, o que me deixa emocionado de verdade. E meio aviadado também, posto que estou chorando feito vaca enquanto escrevo e com vontade de dizer que te sinto como um irmão — um irmão surdo, é verdade, mas irmão(12b).Pode deixar que, quando não houver mais poço, eu grito. Se bem que, dada a situação, pra falar a verdade, acho até que isso não é nem mais um poço. A impressão que eu tenho é que a qualquer hora vou encontrar Dante(12b-4c=x) aqui dentro…
Bom, mas agora, enxugando as lágrimas e mudando de assunto, eu…
SOCORRO! NÃO TEM MAIS POÇO! SOCORRO!
Brincadeirinha…
E foi assim que demos por encerrada a conversa, eu e meus lencinhos Kleenex. Quanto a estes, não sei. Mas eu estava, para dizer o mínimo, indignado e inconsolável. Jamais imaginei que o Sr. Branco Leone, apesar de todos os seus defeitos, fosse capaz de uma desfeita dessas.
Afinal, graças ao grande desfavor que me prestou — e aqui voltamos ao que afirmava ontem, no primeiro parágrafo deste texto; ou seja, ponho em prática uma retomada de discurso que faria Machado de Assis cair babando no chão, língua enrolada, a revirar os olhos de inveja —, graças ao grande desfavor que Branco Leone me prestou, repito, perdi integralmente a ardorosa fé que mantinha na completa, irrestrita e cientificamente comprovada imprestabilidade de todo e qualquer ser humano.
NOTAS
(6) É vergonhoso observar o nível dos argumentos utilizados por certas pessoas no intuito de enganar o próximo: Branco Leone, que nunca trabalhou na vida em função de uma indolência verdadeiramente parlamentar, passa cerca de dois terços do dia deitado, sem fazer nada, enquanto no terço restante senta um pouco para descansar e poupar energia.
(7) Outro sofisma clássico, capaz de arrepiar os cabelos da estátua de Protágoras. Filho de bilionários banqueiros portugueses, Branco Leone nunca soube o que é passar dificuldades, a não ser, exclusivamente, quando tenta pensar. Até hoje, aliás, acha que “falta de capital” é terminologia empregada por livreiros para designar a ausência de obra marxista no estoque.
(7,4) Comprovando o que fica dito na nota anterior, vemos como, nesta passagem, Branco Leone confunde falta de dinheiro com priapismo.
(8) A nota que você está tentando ler não existe, está fora de área ou temporariamente desligada.
(9) Formado em Economia, Branco Leone explicita aqui a célebre Teoria dos Botes Flutuantes, de Adam Smith, para quem liquidez em excesso gera tal fluxo monetário que se torna necessário construir barcos de cédulas de papel para se manter à tona na corrente — no caso, conta corrente. A teoria de Smith, como se sabe, é um desenvolvimento da de Manuel Joaquim, que estabelecia o mesmo, um século antes, com a diferença de que substituía o dinheiro em papel por moedas de prata, o que dificultava um pouco a construção de barquinhos, levando muitas economias a afundar.
(9,99) Mostrando o quanto é prepotente e arrogante, Branco Leone dá conselho no sentido de mudar minha personalidade e me impedir de exercer uma especialidade minha.
(10) Não diga? Eu eu que pensava que até o filme era verdade!
(10,71) Ver nota 14 ou, se esta é sua segunda passagem por aqui, ver nota 15.
(11) Mentira. Eu estava falando a verdade.
(12a) Chato, entediante, sem-graça, inconveniente etc.
(12b) Como já disse, a todas as falhas de caráter, Branco Leone soma enormes defeitos físicos (ou diminutíssimos, em se tratando de determinadas regiões anatômicas), como a surdez.
(12b-4×5=x) Piada desperdiçada, evidentemente. Afinal, o único livro lido na vida por Branco Leone foi o álbum de figurinhas do Menudo.
(14) Ver nota 14,8.
(14,8) Ver nota 10,71.
(15) Como você gosta de perder tempo, né?

setembro 10th, 2008 às 8:00
Mas isso não termina?
Marconi Leal Reply:
setembro 10th, 2008 at 21:56
É que o texto tá rendendo juros. Mas nem vou tentar lhe explicar o que isso significa, pois você já me deu provas suficientes de que não entende nada do assunto.
setembro 10th, 2008 às 8:42
Branco, deposita logo esta merda. Tens umas promissórias aí?
:¬)))
Marconi Leal Reply:
setembro 10th, 2008 at 21:59
Ribas, já tô suficientemente enterrado em matéria fecal para que ele se dê ao trabalho de aumentar o volume, depositando mais.
setembro 10th, 2008 às 9:59
Milton:
Se bastou o ameaço pra ele acabar com minha fama, imagine se eu o obrigo a aceitar. Tô lascado.
Marconi Leal Reply:
setembro 10th, 2008 at 22:04
Deixe de humildade, Branco. Todos sabem como você, homem sério e responsável, não é de delegar tarefas: acaba com sua fama através de seus próprios esforços.
setembro 10th, 2008 às 10:11
Branco,
deixa um envelope anônimo, com as oncinhas, embaixo da porta dele.
Marconi Leal Reply:
setembro 10th, 2008 at 22:23
Impossível, Diego. Soberbo como poucos, ao recusar inúmeros convites para vir aqui em casa, o sujeito já deu provas suficientes de que se nega a aproximar-se da residência de pobres.
setembro 10th, 2008 às 12:09
“Comentava sobre minha recente idéia de praticar o sexo passivo em troca de dinheiro, dado o profundo desespero financeiro que vivemos atualmente — o qual vem servindo, inclusive, para comprovar a teoria evolutiva de Darwin, posto estarmos começando a criar asas e fazer fotossíntese, na total impossibilidade de pagar por uma simples passagem de ônibus ou nos alimentarmos decentemente.” (post anterior).
O parágrafo acima é fantástico! Aliás, quanto é o seu “olho”traseiro? Ando com uma tara inconfessável: comer cu de libélula criativa.
Dou uma sugestão para a melhora de sua situação econômica: você já pensou em plantar bananeira em cruzamento público? Porém, com o sutil detalhe: uma caneta Bic entre os dentes para, enquanto fecha e abre o sinal, escrever no vento 10 vezes a frase “Sou um escritor em dificuldades”. Importantíssimo: não vale nenhuma frase escrita de ponta cabeça, ok?
Marconi Leal Reply:
setembro 10th, 2008 at 22:25
Dada minha extrema habilidade, extraordinária coordenação e total disposição para o esforço físico, se houver alternativa, prefiro o coito passivo a ter de plantar bananeira, Ramiro.
setembro 10th, 2008 às 16:54
O mundo seria mais compassivo se toda família fosse assim complicada e todos usassem um estilo rocambolesco como esse, porque não haveria como baixar porrada em ninguém tendo que pensar em volutas barrocas. Devo a você esse insight, camarada, mas não pretendo pagar nada por ele, que fique bem claro.
Obrigadinha pelo comentário generoso, viu?
Beijins
Marconi Leal Reply:
setembro 10th, 2008 at 22:34
Pelo contrário, Adelaide. Se toda família fosse assim, não só continuaria havendo porradas entre parentes como elas teriam conseqüências muito mais graves. Já pensou, durante uma discussão, levar uma voluta barroca na cabeça?
setembro 10th, 2008 às 20:31
Estou pasmo.
Não só com seus escritos, estes já me deixam boquiaberto faz tempo. Mas com o fato de um brasileiro emprestar dinheiro para outro brasileiro e este negacear!!!!
Se esse brasileiro não tem pinta e jeito de Shylock, pegue essa mixaria logo, Marconi!
Depois você alega privação de sentidos.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.
Marconi Leal Reply:
setembro 10th, 2008 at 22:56
Marco, esse brasileiro tem pinta e jeito de Bishylock, personagem de outra peça do famoso guardador de cavalos. Bishylock também exigia carne em troca do não-pagamento de um empréstimo. A diferença é que adotava o Sistema Métrico Decimal: em vez de uma libra, queria trinta centímetros - dos grossos. Mas não posso negar que Branco tem algo de “O Mercador de Veneza”, sim. O ouvido…
setembro 11th, 2008 às 10:40
Branco,
não se esquente com isso, não.
Ele não precisa de dinheiro. É o sobrinho preferido de Marco Maciel.
O sacripanta do Marconi faz este tipo de chibança só para testar.
Outro dia lhe ofereci um negócio bom, ereto e grande, mas -,creia, ele recusou. Ficou tentado, é verdade, mas recusou.
Marconi Leal Reply:
setembro 11th, 2008 at 12:28
Nego e repilo. É verdade que sou sobrinho de Maciel, de quem herdei inclusive a verve literária e o raciocínio escorreito (observem a redação do AI-5 e me digam se não é obra de gênio), que o Sr. Franciel me ofereceu, sim, um negócio bastante atraente, ao menos segundo a opinião de alguns e o gosto de muitos, e, ainda, que não aceitei a proposta. Porém, é inteiramente inverídico, de acordo com padrões absolutamente científicos de julgamento, que o referido negócio fosse ereto. Muito menos, grande. Em suma, era um negócio ridículo.
setembro 11th, 2008 às 12:38
Marconi, eu ia te sugerir vender um dos rins, porém cheguei tarde aqui nos comentarios,yadda, yadda, yadda…
Marconi Leal Reply:
setembro 11th, 2008 at 14:25
Boa idéia, Serba. Mas prefiro vender os pulmões, que não me servem pra nada.