Yorick

— Que cara é essa, Afrânio? Chego em casa e te encontro assim, bebendo no meio da tarde… Afrânio! Afrâ-ni-ôoo, eu tô falando contigo. O que foi que houve? Desembucha.
— “When you are old and grey and full of sleep…”
— Ih, se tu tá recitando Shakespeare, Afrânio, algum desastre aconteceu. A última vez que te vi dizendo uma fala de Hamlet foi no enterro do teu pai.
— Pra começo de conversa, o verso é de Yeats. E, em segundo lugar, nunca recitei Shakespeare em toda a minha vida, muito menos no enterro de papai.
— Ah, não, é? Você acha que eu não saquei? Ouvi perfeitamente quando você apontou pro lado onde tava o jazigo e disse: “Poor Yorick!”
— Eu apontei pro lado onde tava o jazigo e disse “por aqui”, Marilda! Tava mostrando o caminho. (suspiro prolongado) “Eu sou mais triste que um prático de farmácia…”
— Ah, não, Murilo Mendes, não! Murilo Mendes é grave. E nunca te vi bebendo no meio da tarde. Fala logo, Afrânio, qual a catástrofe que aconteceu? Alguma notícia ruim com relação à mamãe?
— Sim, ela continua respirando.
— Não brinca, Afrânio. Ela tá boa?
— Acho que não. Continua a mesma.
— Afrânio! Fala sério, Afrânio. E os meninos?
— “Sur ta vie et sur ta jeunesse…”
— Quer parar com isso? Me diz: os meninos tão bem? Aconteceu alguma desgraça com eles?
— Exceto o fato de terem herdado aquelas orelhas de abano do teu pai?
— Afrânio! Dá cá esse copo. Fala, Afrânio, por que é que tu tá assim? Que inferno!
— “Lasciate ogni speranza…”
— Chega! Ou você fala agora ou eu…
— A desgraça se abateu sobre mim, mulher.
— Que desgraça, Franinho? Te demitiram?
— Não, eles não fariam isso comigo.
— Ué, e o que te faz ter essa confiança toda?
— Talvez o fato de eu estar desempregado há seis meses, Marilda.
— Ui, desculpe, filho, esqueci. Então te assaltaram.
— Meu atual padrão de vida não permite mais esses luxos, mulher.
— É doença, Franinho?
— Preciso fazer um seguro de vida…
— Não fala assim, Franinho.
— … e um testamento.
— Conta, diz logo tudo, fala, eu vou ser forte. Me diz o que tá acontecendo!
— Mulher, olha pra isso, mulher! Vê com teus próprios olhos!
— Afrânio! Levanta essas calças, Afrânio! Pelo amor de Deus, a empregada tá aí, vai ver!
— Olha, mulher, olha!
— Afrâ… Pentelhos… saco… pinto… marca de nascença… fimose… Não, não tô notando nada de diferente, Afrânio.
— É o fim, mulher. Não há mais saída. Olha direito.
— Nada, Afrânio. Não tô vendo nada.
— É a decadência total, é a decrepitude completa!
— Que foi, Afrânio, o que foi?
— Mulher, nasceu um pentelho branco!