Guerra

Meu pacifismo tem um limite: a leitura de algumas páginas de Heródoto ou Plutarco. Bom, confesso que este último também me dá uma vontade irresistível de enrolar um lençol ao redor do corpo, colocar algumas folhas de louro no cabelo e descair a mão com um gritinho, dizendo:

— Afe, César! Que aqueduto grande você tem!

Situação constrangedora que reprimo a custo, após coçar o saco com um esmeril ou, em casos extremos, ler alguma coisa de Hemingway. Porém, ao menos o historiador de Halicarnasso desperta em mim o cita que todos trazem dentro de si. Sim, todos temos um cita dentro de nós e se vocês não o encontraram ainda, aconselho procurar ali naquela fenda entre o estofado e o encosto do sofá, junto com a caneta Bic e o controle remoto.

A simples leitura de um parágrafo dele me enche de coragem e leva a me imaginar nas situações mais heróicas: arrancando a dentadas a cabeça de um medo, furando os olhos de uns tantos assírios, lendo os artigos do Fernando Henrique na Folha de São Paulo etc. Não foi à toa que, mais de uma vez, minha mulher chegou em casa e eu estava atracado com a TV, trocando cusparadas com o Datena e acotovelando o aparelho de DVD, que tinha tomado seu partido.

Bem, outro dia falei aqui da forma eficaz como estabeleci uma relação afetiva com os pombos que nos azucrinavam no apartamento novo (“novo” sendo, obviamente, um vício de linguagem, posto que os arqueólogos não chegaram ainda a estabelecer definitivamente a data em que ele foi construído). O que não sabia é que, em termos de barulho, o vizinho de baixo — que se não criou asas ainda é por estar, com relação aos pássaros, dois degraus abaixo na escala evolutiva — descobriu método mais pronto de provocar irritação: o pop dos anos oitenta.

Esta semana, relia o primeiro livro da História e ajudava Dario a galivar as fronteiras do império persa (sem meu auxílio, digo modestamente, ele jamais teria construído uma ponte sobre o Danúbio), quando ouço, dois volumes acima do insuportável, a voz — agradável como a de uma vara de porcos que houvesse aspirado gás hélio — de Nina Hagen.

Até então, tinha suportado as afrontas à moda anglo-hindu: de um lado, com suspiros, balançar de cabeça e cânticos a Krishna, para que o infeliz tivesse o mesmo destino dos Kauravas nas mãos dos Pandavas; e, de outro, comendo de colher uma quantidade razoável de Lexotan. Mas naquele dia a visão do Ponto Euxino me repletou de bravura e resolvi contra-atacar.

Acomodei estrategicamente as caixas de som no parapeito da janela, seguindo as boas regras da poliorcética medieval, e liguei o estéreo no último volume, atacando com a Nona (não, não joguei minha avó sobre ele), mais particularmente na parte do poema de Schiller.

O inimigo acusou o golpe (não deve ser um sujeito muito dado a expansões de júbilo) e, recolhendo momentaneamente a infantaria, atacou com os cavalos, ou melhor, com os jumentos: A-HA.

Bambeei qual Heitor, mas enfim consegui me fixar em pé e, subindo na biga, açoitei os cavalos com o Libiamo ne’lieti calici da Traviata. O contendor deixou o gládio cair e fugiu para trás de uma azinheira. Quando o pensava aluído, sacou do arco e desferiu um golpe inopinado: Tracy Chapman.

Caí, percebendo que algum deus auxiliava o oponente, pois, vítima de um passe de taumaturgia, sentia que minha massa encefálica começava a se transformar em cocô. Trêmulo, arrastei meu pingue corpo até o carro terso e, quase sem ar, cobrindo a cabeça com um elmo, resolvi abandonar a guerra convencional e passar ao uso de armas atômicas: apertei, então, o bass e, avançando com a infantaria ligeira, soltei sobre ele Die Walküre.

Em menos de dois minutos, senhores, ele assinou o tratado de rendição. Não foi nem preciso usar o Cid Moreira declamando trechos da bíblia, meu último recurso. Vitorioso, recostei-me então no sofá, baixei o som e voltei a Heródoto.

A vitória foi de tal maneira cabal, que o homizião não voltou a nos incomodar até hoje. Se bem que isso pode ser impressão. Pois ainda continuo surdo.

(Bem dizia o pinto do Marquês de Sade: a vida é dura. Nem bem voltei das férias e já me vejo na obrigação de viajar ao Recife, onde passarei dias terríveis à beira-mar, comendo camarões e bebendo insuportáveis cervejas geladas. Voltarei a atualizar o blog de lá, na segunda-feira, contando as vicissitudes de minha sofrida estadia. Isso, claro, se a ressaca deixar. Conto com as orações de vocês.)