Privada2

- Uh! Esse cheiro… É de você?
- Não, do meu cocô. Por quê?
- Isso… Isso não é normal!
- Ah, não? E você queria que eu eliminasse meus detritos orgânicos como? Através da pele?
- Fazer cocô é normal, Jarbas Filho, o que não é normal é esse cheiro. Tem alguma coisa errada com o teu cocô.
- Tem. Eu já tava inclusive pensando em levá-lo ao psicólogo, coitado. Deve ser fixação na fase anal. Faça-me o favor! Quer deixar eu ler o jornal em paz?
- Não, meu querido, eu acho que você tá levando seu amor ao Oswald de Andrade a sério demais. Porque ou bem você virou antropófago ou não sei o que comeu ontem, mas sem dúvida alguma coisa morta acaba de sair de dentro de você.
- Sei. E, pelo visto, você veio pro enterro, né? Por que não sai do banheiro, hein?
- Porque preciso tomar banho. O que tá me parecendo impossível, pois esqueci minha máscara antigás e, ao que tudo indica, quem construiu nosso banheiro foi a Esfinge. Afinal, caso tivesse nariz, o arquiteto não teria projetado a privada tão perto do chuveiro.
- É, né? Eu só fico triste quando penso no tanto de dinheiro que a gente tem perdido durante todos esses anos. Porque, pelo que você tá dizendo, se a gente tivesse vendido o teu cocô pra Chanel, hoje estaria rico.
- Não, meu querido, o meu cocô pode até feder, mas tá dentro dos padrões normais.
- Segundo o Inmetro, né?
- O senso comum, Jarbas Filho, segundo o senso comum. O meu cocô não cheira bem, evidente. Mas é claramente um produto do organismo humano. Isso que você faz eu não sei de onde vem. É o oitavo passageiro… Só faltava essa: você querer comparar o cheiro do meu cocô com o seu! Eu uso arma convencional, o seu é guerra química!
- Ha! ha! ha! Assim você me mata de rir! Você por acaso tá com medo dos inspetores da ONU? Não seja modesta. Em termos de cheiro de cocô, você já chegou à fissão atômica há muito, meu bem!
- Pra começo de conversa, meu filho, eu tenho prisão de ventre, certo? Só faço cocô, quando muito, de três em três dias.
- É o chamado cocô maturado. É que nem o Congresso. Demora a fazer alguma coisa, mas também, quando faz…
- Já o teu caso tá mais pra Ministério da Defesa, né? Faz merda das grandes todos os dias e põe em risco a vida de milhares de pessoas. Será possível que você vai ficar aí pra sempre, hein? Por acaso tá adiantando o cocô da semana inteira? Eu tô atrasada!
- A culpa é toda sua. Você me desconcentrou. O meu é um cocô sensível, que necessita meditação.
- Que ele é sensível, não resta a menor dúvida. Pode-se senti-lo a léguas. Agora, por favor, sai daí, que eu ainda vou gastar um tempão acendendo fósforos pra acabar com o mau cheiro. Aliás, da próxima vez que for no supermercado, me lembre de comprar uma vela de sete dias, sim? Nossa Senhora do Tietê, como isso fede!
- Pronto, olha aí! Viu, viu? Ficou tímido, travou, mulher! Não sai, não sai mais!
- Ai, não acredito! Será possível que todo dia agora é a mesma coisa?
- Eu avisei. É um cocô criado por vó. Hipersensível.
- Pelo amor de Deus, Jarbas Filho, eu tô atrasada!
- Paciência. Agora é esperar ele recobrar a autoconfiança.
- Vou perder o emprego. Isso não é brincadeira, Jarbas Filho!
- Sinto muito, mulher. Você magoou o bichinho.