HOSPITAL DE LETRAS
— Tá vendo aquele ali de saída? Acaba de se recuperar de um profundo surto de Clarice Lispector. Passou dois meses escrevendo só frases interrompidas pelo meio, palavras jogadas no período ao acaso, frustradas tentativas de fazer prosa poética…
— Coitado. E se curou como?
— Classicoterapia. Autores greco-romanos de duas em duas horas.
— E aquele ali, meu Deus?
— O de ombros caídos?
— É. Como ele tem as costas tortas!
— De tanto carregar palavras-valise. Vê o que está ao seu lado, no banco?
— Qual? O que tá dando banana e cuspindo no enfermeiro?
— Sim. Apanhou uma hilstite aguda. A cada três palavras, agora, emenda um palavrão.
— Nossa! Esse aqui parece popular, hein? Por que é que tem tanta gente ao redor dele com gravador na mão?
— Ah, é que o pobre sofre de cortazarianismo crônico. O que ele diz pode ser entendido de vários modos: de trás pra frente, eliminando-se frases, decompondo-se outras. Então os residentes vão gravando a conversa pra poder enten…
— Ai, meu Deus! Qu-que… que… é isso?
— Bem, aí se trata de um caso típico de doença de Borges.
— Ma-mas esses… esses pêlos? E esses…
— Chifres. É isso mesmo. Ele pensa que é o Minotauro. Opa, cuidado!
— Qu-que foi? Ele morde?
— Só se você entrar no labirinto. Os atacados pela moléstia acham que são faunos, semideuses, deputados honestos e outras criaturas mitológicas. Mês passado havia um de diagnose mais difícil. Achava que era um livro.
— Livro?
— De areia, ainda por cima.
— Morreu?
— Morreu num acidente. Caiu no chão e se desfez. Veja ali, aquele outro.
— Não acredito! Ele tá voando!
— Ué, nunca viu? Uma juliverneção relativamente passageira. Em cinco anos estará curado.
— Mas como?
— A gente faz o doente cursar Administração ou Direito e o excesso de imaginação e criatividade é estancado.
— Não me fale nada! Aquele lá que tá com os pés e as mãos no chão, zurrando e desferindo coices, sofre de esopismo ou lobatismo, não é? Deve imaginar que é o próprio Burro Falante!
— Não, não. Aquele ali acha que é escritor brasileiro do século 21 mesmo. E então, satisfeito?
— Puxa vida, muito obrigado por me permitir a visita, professor. Agora, só mais uma coisa que me intriga. Não olhe agora, não, mas… Esse daqui, ó, à direita. Desde que a gente chegou, ele tá de pé, parado, num canto da ala. Todo mundo sentado, apenas ele não senta, de jeito nenhum. E tem um monte de cadeira vazia!
— Ah, aí é mais delicado… Ele não é interno, é um visitante.
— E não senta por quê?
— Err… (constrangido, sussurrando) Mal de Wilde.

agosto 22nd, 2007 às 12:34
Humor e erudição (literária) são as palavras que melhor sintetizam o seu texto, meu caro. Um abraço.
agosto 22nd, 2007 às 19:25
Salve a loucura!
Beijos
agosto 23rd, 2007 às 2:31
Muito bom, Cara! Hehehe… Sempre superando o óbvio!
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Abraço forte.
agosto 23rd, 2007 às 13:22
Sacanagem com Wilde. Ele conseguia se sentar, sim (hehe…).
agosto 24th, 2007 às 11:30
Vou usar este texto nas minhas aulas de filosofia na faculdade de direito… Repararam na crítica do ensio jurídico? Que sacada genial! Vivo dizendo para a meninada não ficar se encantando com a dogmática técnica, mas os pobrezinhos ficam babando quando ouytros professores falam de legislação
— A gente faz o doente cursar Administração ou Direito e o excesso de imaginação e criatividade é estancado.
agosto 25th, 2007 às 20:05
heheheh1 fazer o doente cursar administração ou direito… isso não é cura, é tortura, meu nego.
Porra, meu, acho que tô sofrendo de hilstite… que merda!
sorte e saúde pra todos - sobretudo aos loucos!
agosto 26th, 2007 às 17:46
caracas, bom demais!
abç