LUTA GRECO-ROMANA
— Nesse momento, os dois contendores adentram a arena. À direita de sua tela, Aristófanes, vestindo sua habitual pele branca com pêlos claros. E, à esquerda, Virgílio, com sua pele mais escura, de pêlos negros. Alguma informação, Tucídides?
— Bom dia, Tito Lívio, eu estou aqui com o veterano Aristófanes, que tenta manter a coroa de louros. Ari, o que você espera da luta de hoje?
— Só digo o seguinte: vou bater tanto que nem com toda a maiêutica Sócrates vai conseguir tirar os dentes de dentro dos pulmões.
— Bom, bem… Mas… Seu contendor é Virgílio…
— Tanto faz. Adversário é que nem discurso de Cléon: tudo igual.
— Virgílio se diz bem preparado e garante que entrará em Roma em triunfo.
— Retórica barata. Vou fazê-lo cair das nuvens. De tanto apanhar, vai sair daqui se sentindo uma rã. Vou esmagá-lo como uma vespa. Nunca mais vai encontrar a paz. Quando vir seu estado, sua mulher vai fazer uma greve de sexo. Em suma, vão acabar dizendo que ele é mais efeminado que Eurípides.
— Alguma mensagem especial para os atenienses que nos assistem?
— Quero convidar todos a ver minha mais nova peça, antes que ela vire fragmentos. Mulher bonita não paga. Feia também não. Afinal, é a cidade-Estado que banca tudo mesmo.
— Obrigado. Salústio, você.
— Tucídídes, eu estou aqui com o desafiante, Virgílio, que parece animado, não é verdade?
— De fato, Salústio, algo me diz que vou sair vencedor.
— Um sexto sentido.
— Não, a sibila de Cumas.
— Vai manter a estratégia de sempre, ou seja, contar com o fôlego épico e tentar levar a luta até o décimo segundo canto?
— Isso. Vou assá-lo em fogo lento, usando a famosa tática Dido.
— Recado para os romanos?
— Gostaria de mandar um abraço para Mecenas e Augusto, que me apoiaram desde o início. E pedir a Horácio que, por favor, deixe um pouco de vinho na cidade para quando eu voltar.
— Boa sorte. É isso, Tito.
— OK. Vocês ouviram aí os dois lutadores. A contenda está prestes a começar. Que podemos esperar dela, Aristóteles? Bom dia.
— Bom dia, Tito e amigos telespectadores. Olha, são duas culturas esportivas diferentes, né? Aristófanes conta com a graça e a criatividade dos gregos, enquanto Virgílio vem com a eficiência e a praticidade dos romanos. Uma coisa é certa: quem vencer, o fará por pouco, coisa de um nariz de diferença. E, nesse caso, os romanos sempre levam vantagem. No mais, é o que se sabe: a luta promete causar várias catarses na platéia. Pode gravar em cera o que eu estou dizendo.
— Muito bem, palavras de Aristóteles, nosso comentarista, cuja ponderação já vem fazendo escola… Quando começa a luta! Inicia-se o grande combate. E, ao contrário do que se esperava, Virgílio parte para cima de Aristófanes, com seu já tradicional estilo homérico. Aristófanes recua, estira a língua para o oponente, balança a bunda para a platéia e faz gestos obscenos para os juízes. Virgílio tenta acertar um iâmbico, mas o golpe sai com dois acentos fracos e não chega a afetar o adversário. Aristófanes gargalha e tenta revidar com uma anacruse de direita. Que entra! Aristófanes prossegue, numa seqüência de golpes poderosa: um troqueu e cinco iambos… Um trímetro, Aristóteles!
— Um trímetro, sem dúvida. Mas parece que Virgílio reclama que o golpe saiu abaixo da linha do hemistíquio. Seja como for, reparem no jogo de pernas de Aristófanes. Com que habilidade esse homem vai de um pé a outro, trocando agilmente de troqueu para iambo!
— Bem, após breve consulta, os juízes consideram o golpe válido. Virgílio vai à loucura. Aristófanes balança a genitália em sua direção, imita uma galinha e tira sons do sovaco. O romano agora tenta e encaixa um iambo com a direita, enquanto com a esquerda faz o inverso e acerta em cheio um anapesto. Sentiu! Aristófanes sentiu o golpe! Virgílio insiste com os iambos. Mais um. E outro. Consegue desfechar um hexâmetro dactílico! Um hexâmetro dactílico perfeito! Aristófanes vai ao chão!
— Parece que sentiu a cesura no supercílio…
— Aristófanes está no chão e os juízes abrem a contagem. O clima é de expectativa. Um… dois… três… quatro… cinco… seis! Seis! De acordo com a escansão dos juízes, a luta é dada por encerrada por hexâmetro dactílico! Incrível! Vitória fulminante de Virgílio!
— Belíssima vitória, realmente, uma coisa do mundo inteligível. A disputa terminou como devia, com fecho clássico.
— Sensacional! Não se via luta assim desde a Idade de Ouro!
— Me lembrou muito o embate já mitológico entre Heraclés e aquele rapaz, o Leão da Neméia, lembra?
— Claro, claro. Perfeita a sua observação, como sempre, Aristóteles. Maravilha… Bom, mas vamos ficando por aqui. E não se esqueçam: na próxima terça teremos mais um combate, ao vivo. Plauto contra Sófocles. Imperdível. Até lá…

setembro 23rd, 2008 às 0:28
Ahn? o Eurípides ERA????
Marconi Leal Reply:
setembro 24th, 2008 at 22:01
Ao que parece, atuava nas duas pontas, Serba. Esquema tático, aliás, preferido por atacantes e defensores na Antiguidade.
setembro 23rd, 2008 às 7:13
“Parece que sentiu a cesura no supercílio…”
Muito bom!!
Marconi Leal Reply:
setembro 24th, 2008 at 22:11
Você fala isso porque nunca sentiu uma cesura no supercílio, Ricardo. Dizem que a dor é tal que muito marmanjo separa os pés de tanto versejar.
setembro 23rd, 2008 às 11:41
Leste os “Os detetives selvagens” do Bolaño?
Há uma incrível série de golpes lá!
Marconi Leal Reply:
setembro 24th, 2008 at 22:12
Ribas, em matéria de literatura, só leio os contemporâneos. Contemporâneos de Dickens.
setembro 24th, 2008 às 21:34
Rá! Rá! Rá!…
Você devia ser roteirista do Monty Python!
Olha, eu estava torcendo pelo Aristófanes. Gosto dos gregos…
Mas foi uma vitória justa. Na loteria esportiva da época deu coluna dois.
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.
Marconi Leal Reply:
setembro 24th, 2008 at 22:21
Nada disso, Marco. Você deve estar enganado. Aristófenes pertencia à Antiguidade. Já a justa, não. Era uma disputa medieval.
setembro 24th, 2008 às 23:44
Deu coluna do meio como de praxe.
Mas pela ilustração parece que Virgílio que ia dar.
Sensacional!
setembro 24th, 2008 às 23:45
ah, não. Ari é o clarinho…
gugala Reply:
setembro 24th, 2008 at 23:45
ops
Marconi Leal Reply:
setembro 26th, 2008 at 11:07
Ari é o clarinho, mas a observação não se perde, Guga: pela ilustração, parece que Virgílio ia dar mesmo. Ou, quem sabe, já tinba dado. O jeitão denuncia.
outubro 5th, 2008 às 7:29
Veado Marconi, este texto chega a ser comovente diante da tua Mestria.
Marconi Leal Reply:
outubro 6th, 2008 at 1:29
Ramiro, você se comove diante da minha rija mestria e ainda me chama de veado?