Cada sociedade possui ritos de adoção próprios. Por exemplo, dizem que no Congresso o sujeito só passa a ser considerado deputado ou senador de verdade depois de roubar seus primeiros cem mil dólares. Já entre os canibais ameríndios, as vítimas do banquete, primeiro, eram integradas à tribo e, depois, ao estômago. Ou seja, eram falsamente acolhidas e dias depois trucidadas, mais ou menos como age minha sogra quando vou visitá-la.

Grupos humanos menos civilizados, como o dos acionistas majoritários de multinacionais, por outro lado, primeiro ameaçam trucidar a concorrência e depois a integram, contra a vontade, ao grupo empresarial. E, na Bahia, o indivíduo só é aceito entre os heterossexuais depois de ter três relações homossexuais, segundo afirma meu amigo Franciel, comprovadamente macho.

Enfim, inúmeras são as modalidades de filiação a determinado povo, segmento ou estrato social, havendo ainda quem insira entre as anteriores uma forma cruel de ritual adesista: a que leva Zeca Camargo a usar calças apertadas ridículas de maneira a incluir-se entre os apresentadores do Fantástico.

Faço esse preâmbulo — que, entre outras coisas, prova definitivamente a tese wildiana de que a literatura não tem utilidade — para contar a vocês ter sido adotado, ao fim de longos três anos de espera, como cidadão paulistano, depois de arrojar provação cultural típica dessa gente alegre, mulata, inzoneira e adepta do presente do indicativo em frases condicionais: fui assaltado anteontem na praça da República.

Um evento lindo, diga-se de passagem. Caminhávamos eu e minha consorte por aquela aprazível vizinhança quando dois sujeitos cordatos pediram gentilmente que cedêssemos nossos pertences pelo bem da causa do lumpemproletariado, produzindo argumentos convincentes, palavras afáveis, gestos comedidos e uma faca de cerca de 15 cm. Adepto das artes marciais e praticante laureado do jiu-jítsu, preparei-me para assestar golpe mortal em ambos, mas fui estacado por uma questão de consciência. Mais especificamente, a consciência de que levar uma facada dói.

Assim, ponderado, tranqüilo e intérrito como de hábito, após soltar um berro que derrubou o duque de Caxias de sua estátua eqüestre a algumas quadras dali (dirão os literalistas que “estátua eqüestre”, aqui, como de resto em se tratando de todos os grandes homens públicos nacionais, é pleonasmo, mesmo na ausência de montaria) e de me agarrar heroicamente a minha amada, bradando bem braba, bárbara e bravamente, qual bom bardo simbolista: “Façam o que quiserem com ela, mas não toquem em mim, por favor!”, optei pela guerra psicológica. Não, não usei de ironia, como Jung contra Freud, preferindo, em vez disso, escorregar, meter a cabeça no chão e acenar saudoso, enquanto os caroáveis meliantes se afastavam com minha carteira.

Em função do que, ontem pela manhã, ainda com dor de cabeça por conta da esfuziante celebração e, sobretudo, da angulosidade dos paralelepípedos pátrios, acarei a maravilhosa experiência de necessitar do serviço público brasileiro, entidade que tanto nos orgulha e faz as instituições estrangeiras parecerem medíocres. Seus céleres e cartesianos trâmites, por exemplo — lembro aos fracassomaníacos —, demonstram o quanto Kafka era uma criatura neurótica e afetada, supervalorizadora de pequenos problemas cotidianos e mínimas coerções do Estado.

Findas breves cinco horas de fila — em que pude, inclusive, perceber como a recente diretriz do STF para que os presos sejam tratados dignamente já está em vigor, não havendo nenhum deles, em minha presença, levado mais de vinte socos per capita —, saía da delegacia com os papéis necessários para tirar a segunda via dos documentos quando tive uma prova de que, a exemplo do que ocorre com noviços em cerimônias do Alto Xingu, os paulistanos levam tão a sério os ritos de entrada para sua etnia que precisarei, a partir de hoje, arranjar novos nome e identidade. Afinal, fui assaltado mais uma vez. E, dessa feita, roubaram o boletim de ocorrência.