Apesar de estarmos afastados centenas de exegetas, monges copistas e tradutores de distância, nunca deixei de admirar a figura de Jesus. Afinal, praticamente sozinho e com auso arrebatador, o Nazareno venceu romanos e sacerdotes de Israel, revolucionou a noção ocidental de homem e de religião e — coisa muito mais admirável para um sedentário como eu, cujo esporte de predileção é o lançamento das Obras Completas de José de Alencar ao cesto ou o levantamento de A Comédia Humana em três edições — caminhou da Galiléia até Jerusalém a pé, várias vezes, ao longo dos anos.

No entanto, quando adolescente, comecei a duvidar da divindade cristã e de qualquer espécie de transcendência — incluída aqui a crença na existência de letras de rock —, por culpa exclusiva de Sartre. Aliás, foi exatamente por ter exercido semelhante influência sobre milhares de jovens que, como se sabe, o filósofo recebeu da Providência o castigo de ficar zarolho e casar com Simone de Beauvoir.

Bom, mas, como dizia, por volta dos doze anos, mais ou menos, passei a desprezar a Igreja e, em matéria de religião ortodoxa, salvacionista e impraticável, acabei optando mesmo pelo comunismo. Até que cresci e isso também passou, sem ter provocado em mim dano mais grave que certa tendência a lamber os sovacos quando ouço alguém dizer “reificação” três vezes.

Eu sei. Há gente que acredita nas fábulas mais inconcebíveis: gnomos, extraterrestres, chupa-cabras ou jornalistas. Quanto a mim, não duvidaria de um amigo que dissesse ter visto um deputado honesto. Talvez sorrisse, mas não o desprezaria tampouco se afirmasse ter presenciado brasileiros formando uma fila. E até gargalharia, porém só jogaria tomates em última hipótese, caso informasse ter assistido a uma peça inteligente do Gerald Thomas.

Não nego, contudo, que partiria definitivamente para o micterismo diante daquele que caísse na besteira de me contar ter visto uma criatura divina — que não fosse a Nicole Kidman ou a Uma Thurman, bem entendido — cortar o espaço sobre sua cabeça e causar um terremoto de pequenas dimensões ao se chocar contra o solo.

Por isso, sei que ateus e heresiarcas empedernidos torcerão o nariz, baterão o pé e morderão a manga da camisa, insinuando a meu respeito coisas de fazer corar um congressista, depois de lerem esta narrativa. Também eu, em outras épocas, caso me deparasse com o que desfiarei a seguir, no mínimo atiraria o blog, com monitor e tudo, pela janela. De preferência na cabeça de um cantor de forró eletrônico.

No entanto, repito aqui o que falo diariamente a meus credores, quando me ligam, furentes, ameaçando me colocar no SPC ou, coisa bem pior, recitar uma profusão de frases no gerúndio: tenham paciência e me dêem um pouco de crédito. Porque o fato é que as coisas se passaram exatamente assim. E quero que troquem o nome do que os irmãos Campos fazem para arte se eu não estiver falando a verdade.

(CONTINUA NA SEXTA-FEIRA)