Ao ver o Nazareno esparramado em meio às almofadas, perna apoiada no joelho, arrancando a pontinha da unha do dedão do pé, distraidamente, minha mulher cuspiu, de dentes cerrados:

— Quem era esse?
— Calma, tu não vai acreditar se eu disser. Ele… ele não é desse mundo.
— Isso eu já tinha percebido.
— Não, escuta. Ele é do Além.
— Ótimo, porque é pra lá que vai voltar quando puser as mãos no pescoço dele!
— Olha pra mim. A palavra “cruz” te faz lembrar alguma coisa?
— Nosso casamento?
— Muito engraçado. Você sabe, por acaso, de quem ele é filho?
— Óbvio. É um belo filho da…
— Pssss! Mulher, presta atenção. Palestina, Natal, há dois mil anos…
— Jesus Cristo!
— Até que enfim.
— Jesus Cristo, Virgem Maria, Deus do Céu me ajude! Que é que esse demente tá fazendo agora?

Olhei para onde ela apontava e vi que o Senhor havia se levantado do sofá e, destemidamente, vertia o conteúdo de um cinzeiro sobre o tampo de madeira da mesa (36 vezes no cartão). Desenhava, usando as cinzas como tinta, enquanto tentava fumar um resto de cigarro deixado ali.

— Coisa cof, cof interessante. Pra que cof, cof, cof serve? — perguntou Ele.
— Pra enfiar no…
— Calma, mulher!

Tapei sua boca, segurando-a de maneira a evitar que matasse Jesus de novo, coisa de resto desnecessária, pois para isso já temos as igrejas neopentecostais. Porém, se contive o deicídio, ao custo de algumas dentadas nos dedos, devo dizer por outro lado que, em se tratando de controlá-la, a Linha Maginot surtiu mais efeito na contenção dos nazistas. Debalde seria, no caso, toda a arte poliorcética medieval.

— Infeliz! — urrava, veias saltando do pescoço. — Filho de mãe sem pai!
— Pssss! Pra que reavivar um assunto tão antigo?
— Alguém pode explicar o que foi que eu cof, cof, cof fiz?
— Eu explico! Com mímica!

Avançou para cima do Senhor que, cautelosamente, correu para o outro lado da mesa. Afinal, enfrentar o diabo no deserto, em jejum, é coisa que todo o mundo faz. Ali, eram outros quarenta. Tendo um vaso de porcelana nas mãos, com o qual, generosa, pretendia inaugurar a cabeça do Messias, ela gritava:

— Vem pra cá, covarde!
— Deixa ele, mulher! Pelo amor dele mesmo!
— Deixo, sim! Deixo ele com a cabeça rachada!
— Cof, cof, cof!

Sem esperar mais, assestou o objeto na cabeça do Filho do homem, que foi ao chão, desacordado.

— Mulher, mulher, tu assassinou Jesus Cristo, mulher! — escabelei-me.
— Foi mesmo? Então cadê meus trinta dinheiros?

(TERMINA AMANHÃ OU NA SEGUNDA-FEIRA)