O versículo anterior poderia ter posto pulgas atrás da orelha de mais de um crítico literário. Isso, caso críticos literários tivessem cabeça e não, como é consabido, fossem constituídos exclusivamente de língua, tronco e membros.

Sem falar, claro, que seria preciso que as pulgas conseguissem viver no vácuo. E, por fim, que, fugindo inteiramente de suas obrigações profissionais, os críticos literários se dedicassem à leitura, o que é impraticável, pois tomaria todo o seu tempo, tornando impossível sua participação em mesas de discussão e noites de autógrafo.

No entanto, caso haja por aí ao menos um terapeuta lacaniano aposentado, que não precise, portanto, se dedicar a sua principal atividade — ganhar dinheiro — ou mesmo qualquer indivíduo que, nostálgico, ainda conserve hábitos dessuetos em nosso país, como o de pensar, não ficará menos intrigado que eu, ao perceber as semelhanças entre o atentado de minha mulher à vida de Jesus e a expulsão do homem do Paraíso, com todos os problemas que esta última acarretou à humanidade, dos quais o menor não é o pagamento de IPTU.

O simbolismo é o mesmo, a diferença são algumas folhas de parreira e o fato de Eva, recém-criada, não possuir hormônios ainda. Ao contrário da minha mulher que, movida por eles, ou talvez por não gostar muito de Aldir Blanc, abriu a porta e anunciou, sem ao menos olhar para o corpo do Messias estendido no chão:

— Vou sair!
— Pra buscar José de Arimatéia? Porque tudo indica que o Homem tá morto. E eu não tenho dinheiro pro enterro.
— Vou sair e, quando voltar, espero que esse sujeito esteja vivo e bem longe daqui.
— Bonito da sua parte, porque foi justamente com base nessa mesma esperança que cresceu todo o cristianismo.
— Volto em duas horas.
— Então, sinto muito, você devia ter atirado um vaso na cabeça de um daqueles deuses gregos, que vão e voltam do Inferno mais rápido. Acontece que com o Filho do homem aqui, a regra é esperar três dias.

Sem me ouvir, ela bateu a porta, com uma delicadeza própria de nadadoras olímpicas alemãs. Quanto a mim… Bom, sei que a hipocrisia é qualidade indispensável para a carreira corporativa e a boa convivência social, mas não estou redigindo meu curriculum vitae nem em chat, então confesso.

Enquanto o Senhor estava aparentemente morto no chão da sala, aproveitei para me livrar de uma vez por todas das dúvidas que tinha quanto a sua verdadeira identidade, ao apalpar seu abdômen, procurando o furo onde, segundo Caravaggio, Tomé enfiou o dedo. E não, caso haja por aí algum desatento apreciador das artes plásticas, não me refiro ao umbigo.

(TERMINA AMANHÃ, SE O BOM DEUS QUISER)