Admito: também eu quis tocar nas chagas de Cristo. Em minha defesa, no entanto, alego, primeiro, que o fiz numa época em que nem vendo e apalpando dá mais para acreditar - eis aí o Ronaldo Fenômeno e meu salário que não me deixam mentir. E depois, a admissão da culpa é o primeiro passo para a remissão. Portanto, se no Juízo Final houver promotores, terei direito, no mínimo, aos benefícios da delação premiada. Minha sogra, portanto, que se cuide.

Antes, porém, de levantar a túnica e esticar o dedo para dentro do sagrado orifício do Senhor, rezei uma ave-maria, prometendo passar um mês inteiro vendo filmes iranianos se aquele ali não fosse Jesus. Afinal de contas, pensava, que diabos tinha Ele vindo fazer na Terra, promovendo espetáculo tão démodé, em pleno terceiro milênio, quando os pós-estruturalistas e o cabelo do Roberto Justus já haviam provado que tudo era possível?

Por que não tinha ido ao Texas, pelo menos, onde as pessoas ainda acreditam em idéias inconcebíveis, como Céu, Inferno, fumo de mascar e republicanos? Será possível que o sujeito não pode mais ter o conforto e o consolo da incredulidade? Quem precisa de Deus, quando pode contar com revólveres ou 20mg de fluoxetina? E se, de repente, o Papai Noel resolve aparecer também? Hein? Ou o saci? Que é que eu vou dizer ao saci?

Além de ser obrigado a viver e perpetuar a espécie - ganhando em troca não mais que alguns espasmos e uma fugaz sensação de prazer, que nem de longe compensam a inquietude existencial, para não falarmos dos apresentadores do Jornal Hoje e do Chimbinha -, e como se não bastasse o aumento da expectativa de vida nas últimas décadas, a gente ainda terá toda uma eternidade pela frente?

E tem mais: esse negócio de milagre, todo o mundo sabe onde vai dar: dura alguns anos, impulsiona a economia, mas só beneficia a classe média e, no final, acaba aumentando a concentração de renda. Não, não, devagar que o iconoclasta é de barro. Vamos parar com isso de absolutismo moral e hierarquia de conceitos e voltar a nossa velha e boa relativização e anomia.

Falava essas coisas de mim para comigo e apesar de não nos bicarmos, concordava com meu interlocutor. Até que, por fim, criei coragem, me debrucei sobre o Messias e me preparei para proceder ao exame. Temporão, pois, como se sabe, o Senhor só tem 33 anos e não precisaria ainda passar pelo toque.

Tão-logo encostei em seu corpo, no entanto, ele abriu os olhos e soergueu o busto, irônico:

— Pensava que sua fé no agnosticismo fosse inabalável.
— E eu pensava que não era capaz de ressuscitar os mortos com um toque — repliquei. — Se soubesse disso antes, minha vida sexual teria sido muito mais satisfatória…
— Ih, ih, eu te assustei. Pensou que eu tinha morrido?
— Desde o primeiro livro de Nietzsche.
— Esse é que é o problema de vocês, céticos. Ninguém hoje sabe mais o que significa a imortalidade.
— Claro que sim: um monte de escritores velhos e medíocres reunidos.
— É preciso recuperar a confiança na Santíssima Trindade.
— Não respondo por ninguém, mas pelo que tenho visto até agora, posso dizer que confio no máximo em dois terços dela.
— E aquela mulher, onde tá? A louca. Do vaso.
— Ah, não sei. Nós não nos conhecemos direito. Somos apenas casados.

Estávamos nesse construtivo diálogo, que, caso houvesse se passado no Oriente, teria dado origem a pelo menos duas religiões, cinco seitas e uma prática asceta, senão quando, de dentro de um foco de luz e soltando algumas penas, de repente, uma criatura etérea se materializou, acima de nós, em plena sala. Um anjo. Um anjo de verdade. E não, não era a Nastassja Kinski.

(CONTINUA NA SEGUNDA OU NA TERÇA)