É certo que o aparecimento repentino de uma criatura alada na sala poderia deixar mais de um defensor oitocentista da geração espontânea entusiasmado. Afora esses, creio que a maioria dos mortais ficaria no mínimo alarmada. Não foi diferente comigo que, apesar da aparência e, sobretudo, do formato do nariz, sou uma pessoa como qualquer outra: respiro, como, ando e durmo quando há Prozac.

— Que-quem é vo-você? — gritei, ao ver o indivíduo, de manto azul, segurando um caderno de letras góticas aberto, onde fazia anotações com uma caneta Bic de tampa mordida.
— O que é que você acha? — perguntou ele, impaciente — O anjo Gabriel, né? Tava pensando que era quem? Uma banshee? Se disser Clóvis Bornay tiro dez anos de sua vida!
— Bem, não sendo Dimas, o Bom Ladrão, eu já fico mais tranqüilo. Mas, olha, se o senhor veio aqui com aquele papo de que minha mulher vai conceber do Espírito Santo, me poupe, hein!
— Caluda! E não adianta se fingir de morto, Jesus. Eu não caio nessa. No dogma da infalibilidade dos papas, eu não creio muito, sobretudo quando se sabe que, no futuro, eles começarão a andar de sapatinho vermelho. Mas no da ressurreição, sim. Agora, chega. Levanta-te e anda. Teu pai tá te esperando e não o via irritado desse jeito desde que descontou aquela enxaqueca nos pobres dos egípcios.

O Filho do homem, que tão-logo vira o anjo, tornara a fechar os olhos, abrira os braços e, imóvel, colocara a língua para fora, reagiu:

— Não vou voltar, Gabriel. Minha missão é salvar os homens.
— Jesus, Jesus, salvar os homens é como completar o Cubo Mágico, fazer o William Waack sorrir ou ouvir uma frase congruente do Gilberto Gil. Seu Pai, que é seu Pai, já desistiu há muito tempo. A última vez que tentou alguma coisa nesse sentido foi no Renascimento. Mas Duchamp jogou todos os seus planos por Terra. Ou você acha que, se ele ainda se preocupasse com isso aqui, deixaria grassarem tantos males pelo planeta, como doenças incuráveis, tsunamis e teses de intelectuais da USP?
— Eu acredito no ser humano, criado à imagem e semelhança do Pai, Gabriel.
— Bom, eu prefiro acreditar nas lesmas, que são uns bichos com senso moral mais desenvolvido. Agora vamos que eu não quero levar mais esporro e o tráfego aéreo esta hora é uma loucura.
— Este homem me cedeu sua casa e é nela que vou ficar pelos próximos dias, até conseguir passar minha mensagem ao mundo mais uma vez.
— Sei que não tenho o direito de interromper esse colóquio divino — falei —, afinal o único poder extraordinário que eu tenho é o de tirar sons do sovaco. Mas quero dizer que eu não ofereci nada, ele que colocou essa cruz sobre meus ombros. Que fique registrado: sou um homem tradicionalista, nessa peleja aí, torço pelo Velho Testamento e dou duas catástrofes naturais de vantagem. E quero imolar meu filho vivo se eu estiver mentindo.

O anjo me encarou com uma alegria própria de músicas de Vinicius e, em seguida, anotou algo no caderno, suspirando longamente:

— Paz, amor, caridade e confraternização, Jesus? É essa a sua mensagem? Será que não percebe que os hippies incluíram sexo e drogas aí e nem assim conseguiram emocionar muita gente?
— Também — exclamei —, com a Janis Joplin gritando daquele jeito, quem é que ia ouvir a mensagem!

(ACABA AMANHÃ. JURO PELO PREPÚCIO DE JUDITE)