Taccuino Sanitatis Casanatense

LÍDER: Sabia, olha aí como você não passa de um pequeno-burguês, fã de filmes de Bergman. Você deve ser daquele tipo de gente tão insensível que come uma lasanha inteira sem se importar com os seus gemidos.

GERENTE: Gemidos? Da lasanha?

LÍDER: Viu? Eu sabia. Não esperava outra coisa vinda de um membro da elite massívara. Você é um vendido ao seu chef. Os chefs exploram as massas, retalhando-as, assando-as e procedendo a toda sorte de crueldades com elas.

MANIFESTANTES: (em coro) Ine, ine, ine, não queremos tagliarini! Ine, ine, ine, não queremos tagliarini!

GERENTE: Chefes! Com “e”, meu filho! Os chefes, os donos do poder! Marx nunca falou de chefs na vida! Aliás, com aquela barriga dele, tenho certeza que ele apreciava uma boa massa.

LÍDER: Meu caro burguês, o próprio hino socialista diz, numa clara menção à necessidade de libertar as massas: “De pé, ó vítimas da fome!” A que você acha que isso se refere, senão ao consumo de macarrões e afins por parte de famintos alienados?

GERENTE: Aos pobres e despossuídos! Será que o senhor não entende? Aos pobres e despossuídos!

LÍDER: É inútil discutir com você. Todos sabem que Marx manteve durante anos, como melhor amigo e colaborador, um macarrão, o cabelo-de-engels.

GERENTE: (aos berros) Não acredito no que eu tô ouvindo! O cara acha que Engels é um tipo de macarrão!

MANIFESTANTES: (em coro) Óli, óli, óli, não comemos ravióli! Óli, óli, óli, não comemos ravióli!

LÍDER: E outra: a indústria suporta essa situação deplorável através da mais-valia, outro conceito marxista. É vale-refeição, vale-alimentação, vale de padaria…

GERENTE: Chega! Não quero ouvir mais essa idiotice! Daqui vocês não passam!

LÍDER: Não adianta reagir. É a marcha da história, meu bom burguês. O próprio Marx prenunciou a mudança de regime através da revolução, ou seja, a implantação de um regime não-calórico, uma nova dieta, sem massas. (ao megafone) Avante, companheiros! Trabalhadores do mundo, libertai-vos do rolo de macarrão!

MANIFESTANTES: (cantando e avançando para dentro do supermercado) “Caminhando e cantando e se abstendo de pão, somos todos iguais, homens ou macarrão!”

GERENTE: Segurança! Segurança!