Corredor

— Ai, meu pé!
— Você diz isso por preconceito.
— Como? Você pisou no meu pé, Armina!
— Tudo bem. Mas precisava reagir desse jeito?
— Você preferia que eu dissesse “uh”, por acaso? Uh, continua doendo! Foi bem no ded…
— Não é o “ai”, Botero, é a maneira como você fala.
— Que é que você disse? Ai, digo, uh, essa agora foi…
— Eu disse que esse seu “ai” tá carregado de preconceito sexual.
— Se tem uma coisa contra a qual não tenho preconceito é sexo, Armina. Pelo contrário, gosto muito. Você é que às vezes…
— Preconceito contra o sexo! Machismo! Você é contra o meu sexo!
— Se é o que eu prefiro!
— Olha a brincadeira. Tô falando sério. Através desse seu “ai” se vê toda a sua misoginia.
— Duvido.
— Pois saiba que é verdade.
— Não, duvido que você saiba o significado de misoginia.
— Isso, brinca, vai brincando.
— Armina, pelo amor de Deus, Armina, eu não acredito que você… Essa agora, a pessoa inferir uma série de… Pfff.
— Olha aí!
— Ahn?
— Esse seu “pfff”, Botero. É disso que venho falando. Dessa sua dificuldade para aceitar o outro.
— Que outro? Fala, Armina! Tem alguma coisa que você quer me contar?
— O outro, a alternativa, Botero. Isso tem tudo a ver com a sua criação.
— Não bota a mãe no meio que eu boto no meio da sua.
— Quanta maturidade!
— Tudo bem, Armina, prometo que da próxima vez eu uso uma interjeição nova no lugar de “pfff”. Quem sabe “splectpei” ou coisa do tipo. Agora, por favor, será que eu posso passar pra cozinha pra pegar gelo e evitar que meu dedão fique igual ao busto do Marco Maciel? Puxa!
— Incrível.
— Que foi, agora? O “puxa”? Vai implicar com meu “puxa”? Vai me dizer o quê? Que ele demonstra todo o meu desprezo pelos manetas?
— Seu desprezo pelo diferente, Botero.
— Entendo. Já você tem amor ao igual, né? Por exemplo, quer que meu dedão fique igual ao joelho. Será que dá pra sair da frente?
— Sinceramente.
— Putz!
— Olha aí!
— Sai.
— Não.
— Armina, eu… Uaia! Uaia! Você pisou no meu dedão de novo!
— Uaia, não, hein? Uaia, não!