O IDIOTA COMENTARISTA DE BLOG A NÍVEL DE SOCIOLOGIA, ENQUANTO TIPO, PRO MODE NÓS ENTENDER
Após dois anos de curso virtual na Faculdade de Estudos de Idiotia Aplicada da I.M.N.S, afamada universidade de Washington, D.C., comunico, orgulhoso, que acabo de concluir meu mestrado, com a tese: O idiota comentarista de blog a nível de sociologia, enquanto tipo, pro mode nós entender. Nada mais justo, portanto, que a cite neste espaço, como forma de agradecimento às inúmeras cobaias voluntárias que, através dele, contribuíram enormemente para que chegasse a mais de uma conclusão inovadora, gerando, dessa maneira, benefícios inestimáveis à ciência.
Peço desculpas por intrometer assunto tão insípido nesta página, mas me sinto moralmente obrigado a prestar a homenagem. Assim, na expectativa de futuramente, a exemplo de Gilberto Freyre, receber um título de Sir das mãos da rainha da Inglaterra, disponibilizo abaixo trechos da introdução do trabalho:
O conceito desta monografia surgiu de uma constatação óbvia até mesmo para um idiota: nossa sociologia despreza inteiramente o assunto, enquanto, de sua parte, a antropologia entrega-se, quase que com exclusividade, ao estudo de seres racionais, como o macaco de Benguela e a lesma de Acapulco. O mais próximo da análise científica da idiotia que temos até hoje é aquela feita sobre os comunistas e os conservadores (LEBOWITZ, 1986), insuficiente para instrumentalizar a perquirição das variadas manifestações dessa espécie simpátrica, sobeja na contemporaneidade — caso dos idiotas comentaristas de blog, que constituem subject de nossa pesquisa. [...]
De acordo com observações empíricas e a leitura do parco material acadêmico disponível sobre o tema, pudemos constatar a presença de caracteres tipificados, obtidos em condições de excelência laboratorial, que nos permitem dar por certa a existência dessa classe específica de idiotia. Diga-se a esse respeito que, ao contrário do esperado, o comportamento absolutamente homogêneo dos pesquisados revelou-se mesmo, a princípio, um entrave ao andamento das inquirições (vide ANEXO 1 — MÓDULO A), pois parecia indicar ser a idiotia blogueira não uma expressão de individualidade, mas uma sorte de epifania de uma idiotia superior, que se deixava entrever em corpos inanimados.
Felizmente, porém, com a seqüência dos trabalhos, terminamos por superar essa dificuldade inicial e, enfim, pudemos delinear, com margem de erro aceitável, ao menos quatro tendências básicas do idiota das caixas de comentário de blog que o diferenciam de modo conspícuo de outras criaturas já descritas na literatura científica conhecida, como o idiota do celular no cinema e o idiota que abre a mala do carro para que a rua inteira ouça pagode. A saber:
1. O anonimato dos comentários. O idiota comentarista de blog invariavelmente esconde a identidade sob um pseudônimo, fazendo da covardia uma característica pronunciada e indicativa de criação por progenitora (FREUD, 1911), i.e. “avó”. Se assina suas ofensas, o faz com o prenome apenas, tendo o cuidado de inserir um endereço de e-mail inválido.
2. O ataque virulento a idéias que não estão expostas no texto. Chegamos a esse resultado após a análise exaustiva das amostras e ainda que admitido o postulado pós-moderno de co-autoria do leitor (ECO, 1962). Indícios parecem apontar para a ausência de atividade cerebral nas cobaias. (vide TABELA C-11)
3. A denúncia de erros gramaticais inexistentes, através de erros gramaticais existentes. O idiota comentarista de blog se apega, em geral, às regras facultativas do idioma para denunciar supostas incorreções gramaticais. O que não o impede de fazê-lo em ortografia sofrível e, na maioria das vezes, ignorando as normas de concordância (HOUAISS, 2007; BECHARA, 2006).
4. A ignorância da figura de linguagem conhecida como “ironia”. Tal procedimento foi observado mesmo quando a ironia se expressa no estilo mais patente (WILDE, 1887) [...]
Por fim, identificamos uma quantidade considerável de idiotas comentaristas de blog que formam uma subclasse dentro da categoria sociológica apresentada, a qual, a nosso ver, merece estudos posteriores. Trata-se dos idiotas blogueiros comentaristas de blogs. Estes têm como fundamental método de ação não ler o texto que comentam, fazendo da caixa de comentários objeto de permuta, na expectativa de que o autor da postagem retribua o ato, comentando também os seus escritos. Estabelecem, portanto, uma forma inédita de interação social — o escambo exegético — e adotam uma escala de valores sui generis (OINC-OINC et IHON-IHON, 2008), em que o prestígio pessoal é medido através do número de comentaristas em um website.
A tese segue por aí. Entretanto, não quero importuná-los com vírgulas em excesso. Só gostaria de, antes de encerrar este post, chamar a atenção para um ponto que talvez não esteja claro: se por acaso pensou que me referia a você em algum dos parágrafos acima, fique aliviado, você não é um idiota comentarista de blog. Afinal, uma característica importante deste, que deixei de citar na exposição, mas, tendo ela edição em livro algum dia, adicionarei ao texto, é jamais se reconhecer como tal. Não raro, pelo contrário, enxerga-se como paradigma da genialidade.
Contudo, não aprofundei o tópico, que terá de esperar a conclusão do doutorado, daqui a quatro anos. A não ser que algum idiota comentarista de blog apareça na caixa de comentários abaixo, claro, o que me faria reavaliar a hipótese.
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MAL-ENTENDIDO: Eis que ocorre novamente aquele fenômeno que, usando-se conceito moral do século XXI, convencionou-se chamar de “mal-entendido”. Luma escreveu este texto e um, ao que parece, confuso entendedor acabou produzindo este. A coisa está explicada aqui. Confiram e vejam se entendem.

outubro 1st, 2008 às 8:03
Cara, eu acho que a pessoa tem que se assumir! Cheeeega de repressão. Cheeeeega de meda! Saiamos às ruas, pois, com nossas camisetas levando no peito a frase: “Eu comento em blog sim, e daí? Deixe seu comentário abaixo e me linka, tá?”
Marconi Leal Reply:
outubro 1st, 2008 at 16:02
Não adianta, Edu. Pelo comentário a gente percebe que você leu o texto. E ainda deixou seu e-mail, corretamente. Sei que você quer ter o prestígio de um idiota comentarista de blog, mas não é assim que funciona. É preciso anos de inatividade cerebral para alcançar o posto.
outubro 1st, 2008 às 11:15
Comecei vestindo a carapuça, mas quando cheguei nas últimas linhas percebi que pelo menos tinha lido tudo e nem dentro da sub-classe me achei . Faltam outras tendências ainda para poder me encaixar melhor, espero que em 4 anos ainda exista internet pra vc se aprofundar neste doutorado tão promissor como um segundo turno do picolé-de-chuchu.
abç
antrológico poste !
Marconi Leal Reply:
outubro 1st, 2008 at 16:06
Se a internet não existir mais até lá, Guga, não se preocupe: os idiotas lançarão seus comentários através de sinais de fumaça, toques de tambor, pombos-correio, relinchos ou batucar de cascos.
outubro 1st, 2008 às 13:45
Marconi, estou na dúvida se comento ou não este texto. E vou prestar atenção nos outros comentaristas para tirar outras dúvidas (rs*)
Obrigada pelo apoio. Nestas horas a solidariedade é a única coisa que nos anima, porque parece que a única pessoa que sente os malefícios da cópia indevida, são os copiados. Os gestores do site BrasilWiki são ridículos. Olhei rapidamente o perfil do reporter “Cézar” (http://www.brasilwiki.com.br/noticiasuser.php?id_usuario=690) pude constatar que os 4 primeiros textos relacionados (não averiguei o resto), todos são plágios; 3 do Mídia Independente e 1 do blogue Hukalilile, de Angola.
E até agora nem pedido de desculpas!
Beijus,
Marconi Leal Reply:
outubro 1st, 2008 at 15:56
Luma, sei exatamente o que você está sentindo. O Brasil produz pascácios tão bem-acabados e de tal monta (deve ser o clima; Caminha já avisava: “em se pautando, zurros dá”) que, aqui, o plágio, ainda que explícito como a vida sexual de ex-presidentes americanos, não é considerado crime. A vítima, pelo contrário, algumas vezes, é acusada de não proceder corretamente. O que é compreensível, pois ela não conta com um bom contador nem imunidade parlamentar.
Espero que você, ao menos, não esteja passando pela experiência de ser chamada de aproveitadora, canalha, plagiadora(!), arrivista e caluniadora, nem tenha a mãe profanada verbalmente ou mandada a lugares inóspitos. Tudo isso vindo de defensores pétreos da moral na vida pública, acusadores empedernidos de desvios éticos, verdadeiros Catão da era digital. E sem o uso de crase, o que é ainda mais grave.
Em suma, desejo que nenhum idiota comentarista de blog surja por lá, orneando, para tornar um episódio desgastante ao extremo ainda mais melancólico. Imagine que, depois de tanto tempo, ainda esta semana ocorreu isso comigo, uma comprovação de que a idiotia cibernética é persistente como toda besta (olhe aí, mais um dado para acrescentar em meu futuro doutorado).
A propósito, achei curioso encontrar na sua caixa de comentários gente que, à época do ocorrido comigo, expunha opinião tão diferente sobre a reprodução sem citação de fonte. Grande lição sobre o comportamento zoológico tive, por exemplo, quando li uma pessoa afirmar, meses atrás, que eu tinha “exagerado” na denúncia do plágio, pois ela, a comentarista, era totalmente contra a propriedade privada, de maneira que encarava o episódio como natural. Ou seja, um argumento em tudo coerente, lógica mais escorreita nem Descartes, depois de duas doses de guaraná em pó, seria capaz de externar. Imagino, por exemplo, que a figura não deva se importar muito quando um ladrão usa a identidade dela para contrair dívidas. Uma alma nobre, sem dúvida.
Bom, mas o autor do “mal-entendido”, no seu caso, até onde sei, não é um ídolo inatacável e, como Deus, imune a falhas, de modo que talvez você não passe por isso. Seja como for, fique certa de que pode contar comigo por agora ou, mesmo, caso queira levar a coisa adiante.
Beijos e paciência. Tive que ter muita. Não é difícil quando se possui, como eu, um espírito superior, um coração inflexível, nervos de aço e se ingere 10 ml diários de Rivotril.
Luma Reply:
outubro 3rd, 2008 at 20:49
Marconi, hoje foi uma ‘moça’ no luz, deixou um comentário e achei que fosse pegadinha sua; porque disse que poderiam aparecer pessoas me xingando. A moça disse coisas que me deixaram de cabelo em pé, uma raiva gratuita, realmente não sei porque. Disse coisas do tipo, que eu deveria parar de humilhar as pessoas, se referindo ao tal reporter ‘César’, também disse palavrões, que eu deveria ser uma mulher mal amada e tals, olha só! O comentário era tão baixo nível que tive que deletar, mas antes acessei o link que ela deixou. Tive que rir, viu? Cada um que aparece!! http://tinyurl.com/45uvf4
O link de citação da fonte de pesquisa foi adicionado à página do repórter wiki. Fiz um update na postagem de hoje e acrescentei os links para os textos que também foram plagiados pelo tal repórter.
Por um momento achei que essa moça pudesse ser o tal repórter travestido, porque não?
Bom fim de semana!! Beijus
Marconi Leal Reply:
outubro 6th, 2008 at 0:58
Eu imagino o seu espanto. Afinal, nosso pensamento atropocêntrico não concebe que animais que vivem em estábulos ou no topo de árvores possam utilizar a internet. E, no entanto, acontece diariamente. Mas não se aflija: após os primeiros duzentos e setenta e três comentários do tipo, você se acostuma. Também, convenhamos, a culpa foi sua: quem mandou tentar proteger os direitos autorais, quando podia estar matando ou roubando, atividades devidamente descriminalizadas no país?
outubro 1st, 2008 às 14:04
Gostei da sugestão do amigo, aí, de cima, sobre a camiseta. Meu slogan será:
ATURE UM COMENTARISTA DE BLOG
ANTES QUE ELE VIRE UM BLOGUEIRO
Marconi Leal Reply:
outubro 1st, 2008 at 16:11
Tudo bem, Ramiro, mas uma camiseta não vai dar. Tem que ser, no mínimo, uma túnica, para deixar espaço para os comentários.
outubro 1st, 2008 às 16:18
ANTOLÓGICO, OBRA-PRIMA!!!
Marconi Leal Reply:
outubro 1st, 2008 at 17:46
Você não me pega. Sei perfeitamente que é um idiota comentarista de blog tentando se passar por Milton Ribeiro. Conheço pelo nariz.
outubro 1st, 2008 às 16:50
Passei aqui só pra dizer que reativei meu…
O Ramiro é um supercomentarista de Blogs. O melhor que já vi! Precisavas criar uma categoria honorável para ele.
Tá.
Pronto.
Fui.
Marconi Leal Reply:
outubro 1st, 2008 at 17:52
Realmente. Fora Deus e aqueles tocadores de flauta andinos, desconheço quem mais, além de Ramiro, tenha o dom da onipresença. Com a vantagem de que o Altíssimo, ao contrário dele, não escreve poemas. Isso se a gente desconsiderar a Nicole Kidman, claro.
outubro 1st, 2008 às 19:14
“3. A denúncia de erros gramaticais inexistentes, através de erros gramaticais existentes.”
Essa é a melhor. Serve pra comentaristas de blog e blogueiros de direita em geral.
Marconi Leal Reply:
outubro 2nd, 2008 at 8:00
Pôs é, axo terríveu ece tipo de konduta.
outubro 2nd, 2008 às 10:44
Legal, Marconi… nem vou comentar nada.
Marconi Leal Reply:
outubro 6th, 2008 at 1:00
Beleza, Ulisses… nem vou responder também.
outubro 2nd, 2008 às 11:25
esse é o meu item favorito:
4. A ignorância da figura de linguagem conhecida como “ironia”.
já o item 1 merece um estudo a parte. trata-se do ‘troll’, pequeno animalzinho que surge da geração espontânea entre restos de pele e ácaros nos teclados dos computadores mal-higienizados. ele se reproduz nas caixas de comentários de posts polêmicos, e se alimenta de respostas.
Marconi Leal Reply:
outubro 6th, 2008 at 1:02
Serba, eu já adotei um método: toda vez que vou usar a figura em questão, levanto o braço direito, que é para o interlocutor entender.
outubro 2nd, 2008 às 21:34
Caro Marconi,
Depois que eu coloquei um troço no Antigas Ternuras, descobri que sou mais visitado nos textos passados que no mais recente. Coisa esquisita, não é? Tenho recebido pedidos de republicação muito simpáticos e concordo com todos, que têm citado a fonte. Porém, ah, porém… Muita gente tem lido textos do meu arquivo. O que fazem com eles? Alguém coloca uma palavra-chave no Google e voalá! Caem de pára-quedas no Antigas Ternuras. Eles só lêem? Chupam descaradamente? Não imagino…
De forma geral, os leitores têm deixado comentários simpáticos. Mas às vezes aparecem uns espíritos sem luz que deixam aleivosias e xingamentos. Sob anonimato, é claro…
A natureza humana é um caso sério…
Carpe Diem. Aproveite o dia e a vida.
Marconi Leal Reply:
outubro 6th, 2008 at 1:05
Marco, alguns chupam descaradamente. Outros, apenas relincham. Descrevo as reações esmiuçadamente em meu trabalho.
outubro 4th, 2008 às 9:53
Marconi, mude logo a porra deste texto. Nem adianta deixar ele aqui que eu não vou comentar nada sobre.
Marconi Leal Reply:
outubro 6th, 2008 at 1:07
Não me surpreendo. De um sujeito que torce pelo Vitória e vota em ACM Neto pode-se esperar tudo.
outubro 5th, 2008 às 9:35
Não entendi nada, dããã… Gosto mais quando tu escreve sobre sexo. Eu quero é sacanagem da grossa (não, da grossa, não. Média).
Marconi Leal Reply:
outubro 6th, 2008 at 1:10
Jens, quanto a seu desejo, aconselho concurso para a Assembléia Legislativa.