O MITO DA CRIAÇÃO SOB A PERSPECTIVA DE UM JOGADOR DE FUTEBOL
No princípio era a bola e Deus disse:
— Faça-se o gol!
Mas não tinha ninguém para chutar. E Deus pegou um punhado de grama, passou saliva para dar a liga e depois soprou. E Deus criou o primeiro jogador de futebol: Cláudio Adão. E Deus achou bom. E foi esse o primeiro tempo da criação.
Em seguida, separou Deus a pequena da grande área e ambas da intermediária, e passou cal nas laterais do campo elísio. E foram esses os acréscimos do primeiro tempo da criação.
E depois fez Deus as traves, o círculo central, a arquibancada, os anjos para pôr na arquibancada para torcer pelo seu time e o ingresso a R$ 30. E Deus achou bom, porque tinha carteira de estudante e pagava meia. E foi esse o intervalo do primeiro para o segundo tempo da criação.
Mas como Deus achasse que o jogador de futebol estava muito só e não teria com quem gastar seus dólares ou a quem dar carona em seu carro importado, do cérebro do jogador de futebol, fez a maria-chuteira. E Deus achou boa. E foi esse o segundo tempo da criação.
Então Deus perguntou ao jogador:
— Preparado?
E o jogador ficou mudo, pois o verbo não habitava nele. Então, Deus, em sua infinita bondade, criou as expressões “caixinha de surpresa”, “a gente vamos”, “o professor”, “respeitar o adversário”, “vai ser um jogo difíce” e mais umas duas ou três. E foram esses os acréscimos do segundo tempo da criação.
Então Deus soprou do seu apito. E o jogador de futebol correu e, com classe, chutou a bola no ângulo. Mas o diabo foi lá e defendeu. E Deus, em sua equanimidade, mandou voltar o lance. Mas o diabo contestou:
— Roubo não, hein? Eu nem me mexi!
E Deus, em sua infinita bondade, deu um cartão amarelo para o diabo. E o diabo insistiu:
— Que marmelada! Só porque é o dono da bola!
E Deus reagiu e, com um cartão vermelho, mandou o diabo para o fogo eterno mais cedo. E o primeiro jogador chutou e marcou. E Deus comemorou:
— Goool! Rá-rá, ru-ru, o Paraíso é nosso! Rá-rá, ru-ru, o Paraíso é nosso!
E, na comemoração, o primeiro jogador tirou a folha de parreira que cobria as suas vergonhas, rodou-a sobre a cabeça e jogou para a maria-chuteira que estava na arquibancada.
E Deus não achou nada bom. E deu um vermelho para ele. E foi assim que, punido por conta da mulher e da cobra, o primeiro jogador foi expulso do campo elísio e teve que treinar de sol a sol para conseguir fazer gols com o suor do próprio rosto em um time da Segunda Divisão.

novembro 1st, 2007 às 7:13
saudações pentabambitricolinas nesta data.
abç
novembro 1st, 2007 às 11:22
Hilário, como sempre, meu caro. E você está no Balaio. Com os devidos créditos, VIU?!? Um abraço.
novembro 1st, 2007 às 14:42
Hilááááário! Então quer dizer que “objetivando a vitória, sempre respeitando o adversário” não é uma frase de inspiração divina? hum, sempre suspeitei disso.
Nhá, quer dizer que num pode copiar e colar? humpf, guri bobo, feio e chato!
Sorte e saúde pra todos!
novembro 1st, 2007 às 15:09
O texto, mais uma vez, genial: mas não é disso que quero falar.
O meu Galo está quase escapando… E o Leão da Ilha, vai precisar de ajuda do todo-poderoso?
Espero que não. Um abraço.
novembro 1st, 2007 às 16:10
Excelente crônica, Marconi! camisa 10 pra ela!
novembro 2nd, 2007 às 12:01
Sempre genial tu, rapaz. Até mais
novembro 2nd, 2007 às 12:51
Marconi,
Venho estimulado pelo que vi de você no Balaio do amigo Moacy e saio com a melhor das impressões. O humor irônico, irreverente, engraçado mesmo, nos pega no primeiro contato. E vejo que gosta de futebol, como eu e Moacy. Um abraço.
novembro 2nd, 2007 às 16:42
Marconi, como diria Mário Viana, “gooool legal”. Na verdade, mais um golaço.
A propósito, quem inventou o ouvinte de resenha esportiva?
Pensei nisso agora por conta de um episódio que relato naquela intimorata emissora ingresiástica.
novembro 2nd, 2007 às 23:54
Muito bom… como fiquei com medo do aviso ao final do texto aviso-te que costumo distribuir seus textos por e-mail, mas com o devido crédito e o link para este formoso blog… Abração!
novembro 3rd, 2007 às 0:01
Excelente crônica. Primeira vez que passo por aqui e serei visitante assíduo de seu blog.
Ahhhhh sou crente. Espero que vc não se importe!(Risos) Mas, literatura boa e bem escrita não se analisa pelo credo do autor.
Grande abraço
Att.
Oziel Alves
novembro 3rd, 2007 às 23:17
Aprazível descoberta, agudizada pelo facto de eu ser um português que também esboça letras. Hoje, os esquissos emergem no seu país, onde viverei até Janeiro.
Espero pelo seu contacto, e uma eventual troca de livros.
Grande abraço,
novembro 4th, 2007 às 4:09
forçou a barra mano brau… jogador de futebol não tem nada o que dizer. só quem diz é o professor, e tal.
novembro 8th, 2007 às 16:53
Redondinho!!
novembro 13th, 2007 às 13:07
Seguindo orientação da minha psicóloga bisexual imaginária, voltei a ler o seu blog. Inclusive copiei este artigo no meu!