Michelangelo Queda

No princípio era a bola e Deus disse:

— Faça-se o gol!

Mas não tinha ninguém para chutar. E Deus pegou um punhado de grama, passou saliva para dar a liga e depois soprou. E Deus criou o primeiro jogador de futebol: Cláudio Adão. E Deus achou bom. E foi esse o primeiro tempo da criação.

Em seguida, separou Deus a pequena da grande área e ambas da intermediária, e passou cal nas laterais do campo elísio. E foram esses os acréscimos do primeiro tempo da criação.

E depois fez Deus as traves, o círculo central, a arquibancada, os anjos para pôr na arquibancada para torcer pelo seu time e o ingresso a R$ 30. E Deus achou bom, porque tinha carteira de estudante e pagava meia. E foi esse o intervalo do primeiro para o segundo tempo da criação.

Mas como Deus achasse que o jogador de futebol estava muito só e não teria com quem gastar seus dólares ou a quem dar carona em seu carro importado, do cérebro do jogador de futebol, fez a maria-chuteira. E Deus achou boa. E foi esse o segundo tempo da criação.

Então Deus perguntou ao jogador:

— Preparado?

E o jogador ficou mudo, pois o verbo não habitava nele. Então, Deus, em sua infinita bondade, criou as expressões “caixinha de surpresa”, “a gente vamos”, “o professor”, “respeitar o adversário”, “vai ser um jogo difíce” e mais umas duas ou três. E foram esses os acréscimos do segundo tempo da criação.

Então Deus soprou do seu apito. E o jogador de futebol correu e, com classe, chutou a bola no ângulo. Mas o diabo foi lá e defendeu. E Deus, em sua equanimidade, mandou voltar o lance. Mas o diabo contestou:

— Roubo não, hein? Eu nem me mexi!

E Deus, em sua infinita bondade, deu um cartão amarelo para o diabo. E o diabo insistiu:

— Que marmelada! Só porque é o dono da bola!

E Deus reagiu e, com um cartão vermelho, mandou o diabo para o fogo eterno mais cedo. E o primeiro jogador chutou e marcou. E Deus comemorou:

— Goool! Rá-rá, ru-ru, o Paraíso é nosso! Rá-rá, ru-ru, o Paraíso é nosso!

E, na comemoração, o primeiro jogador tirou a folha de parreira que cobria as suas vergonhas, rodou-a sobre a cabeça e jogou para a maria-chuteira que estava na arquibancada.

E Deus não achou nada bom. E deu um vermelho para ele. E foi assim que, punido por conta da mulher e da cobra, o primeiro jogador foi expulso do campo elísio e teve que treinar de sol a sol para conseguir fazer gols com o suor do próprio rosto em um time da Segunda Divisão.