Edmundburke

Como o capitalismo saiu vitorioso da Guerra Fria e o comunismo atualmente só existe em lugares obscuros como Cuba, Vietnã e a cabeça de Diogo Mainardi, a moda brasileira mais recente é se tornar conservador. Tem muita gente lendo e, em alguns poucos casos, até entendendo Burke, Chesterton, Friedman e Johnson. Em compensação, há também pessoas cometendo alguns equívocos desconcertantes, como certo amigo meu que, no afã de seguir o laissez-faire, levou tão a sério a Escola Austríaca que, mês passado, em nome do Estado mínimo, mudou-se para Sergipe.

Por esse motivo, e apesar de social-democrata de matiz escandinavo (para mim, como já disse mais de uma vez, trata-se do sistema mais justo do mundo, sobretudo quanto à aparência das mulheres), resolvi prestar um serviço de utilidade pública e reunir, abaixo, os 10 conceitos-chave da nova crença conservadora em nosso país. Leiam, decorem e, por fim, testem a eficácia deles gritando-os em voz alta ao invadir um acampamento de sem-terra. Confiram.

1. Todos os problemas do universo, a começar pelas supernovas e a extinção do sol daqui a bilhões de anos, são culpa da esquerda, a quem se devem também alguns desastres naturais como o furacão Katrina.

2. Os problemas do Brasil começaram quando, em vez de ensinar os índios a serem escravizados e torturados de acordo com as leis do mercado, Pedro Álvares Cabral, notório esquerdista, preferiu distribuir Bolsas Pau-brasil entre eles, acabando com a vontade de trabalhar dos selvagens e transformando-os em alcoólatras, vagabundos e hippies.

3. Graças a escravos negros e esquerdistas motivados por utopias estúpidas como a da igualdade racial e outras baboseiras maximalistas, nosso país não pôde se aproveitar das vantagens competitivas de uma mão-de-obra barata, sendo obrigado a trocá-la, após um período inicial de testes de apenas três séculos, por trabalhadores que recebem — pasmem — dinheiro em troca de seus serviços.

4. O movimento militar de 64 foi um contragolpe. Todo o mundo sabe que aqueles dez ou quinze sujeitos armados de bodoques, maoístas da pior espécie, mais cedo ou mais tarde combateriam as forças armadas e as derrotariam com facilidade.

5. O fechamento do Congresso e a redação de uma nova constituição por parte de Fujimori, além de inúmeras outras violações da ordem legal em diversas partes do mundo durante a década de 90 não tiveram grande repercussão nem levantaram clamores por democracia no Brasil — diferentemente do que ocorre hoje com relação à Venezuela — porque, como se sabe, pela definição histórica clássica, a ditadura só se configura como tal quando o ditador detém todos os poderes, suprime os direitos humanos, sufoca a oposição e usa camisa vermelha com boina.

6. A classe média é um estamento social lindo (Veloso, 2002), verdadeiro guardião dos valores do bem. Sem ela, as empregadas domésticas estariam subindo pelo elevador social e tomando banhos em nossas piscinas, além de recebendo – Deus nos livre – salário com desconto da Previdência.

7. A crise ética e moral que vivemos não tem nada a ver com a decadência dos valores da sociedade liberal moderna, a partir do século XIX, muito menos com gente como Nietzsche e Dostoiévski. É resultado apenas do fato de as escolas nacionais, esquerdistas que são, terem adotado Frei Betto e outros perigosos teóricos comunistas no currículo.

8. Os brasileiros são esquerdistas: daí, por exemplo, as filas e os sinais de trânsito não serem respeitados no país.

9. Ao contrário do que ocorre em outros países menos altruístas e pouco baseados no pensamento de Jefferson, a política externa dos Estados Unidos não procura, jamais, influenciar a de Estados independentes no sentido de se beneficiar comercialmente, mas apenas para espalhar valores democráticos e bonitos.

10. Prêmios Nobel como García Márquez e Saramago são burros, burros, coitados. Afinal, está cientificamente comprovado que é impossível ser inteligente e de esquerda ao mesmo tempo.