Navalha

Ao contrário de vocês, leitores pessimistas e de má vontade, sempre utilizei este espaço para reafirmar minha fé inabalável no Brasil, o qual, como objeto da minha crença, só perde para a mula-sem-cabeça e o Paulo Maluf.

(E antes que algum descrente queira insinuar que o citado animal folclórico não existe, convido-o a dirimir suas dúvidas ao ouvir qualquer comentário da Sandra Annenberg no Jornal Hoje.)

Apesar do achincalhe da malta ignava, sempre defendi ser este um país que premia os indivíduos de acordo com seus méritos. Sendo o principal deles, por exemplo, o mérito de ter um amigo influente.

Mais do que isso, deixei claro confiar na capacidade empreendedora de nossos cidadãos e na ética inquebrantável de nossos empresários que, ao contrário do que querem insinuar alguns vadios, sempre praticaram a corrupção dentro da lei e no sentido do bem coletivo. Ou alguém, por acaso, ainda duvida que família é coletivo de parente?

Isso para não falarmos, por óbvia, na correção férrea de nossos homens públicos que, em termos de hombridade, só perdem mesmo para a de Platão que, como todos sabem, era um pouco mais larga e lhe rendeu até o apelido.

Homens públicos estes cuja integridade, ousaria mesmo dizer, está em seus genes e cujo compromisso popular é cultivado desde o berço, uma vez que são, todos eles, também filhos de mulheres públicas.

Pois eis que agora, mais uma vez, nosso povo dá mostras de sua inventividade ao criar a figura imprescindível, em nossa pátria, do entregador de propinas - como acaba de revelar a PF no bojo da Operação Navalha.

Pergunto a vocês, derrotistas: há quantos séculos nossa máquina estatal se vê emperrada, muitas vezes, pela simples falta dos 10% por fora que façam andar a papelada?

E aquela multa de trânsito, levada inadvertidamente, só porque não tínhamos um trocado na carteira? Quantos deputados não acordam no meio da noite, com crise de abstinência, sem um número a que possam ligar para ser socorridos?

Ora, uma vez registrada a profissão, o entregador de propina solucionará todos esses problemas, destravando a burocracia e propiciando finalmente o crescimento econômico de que tanto necessitamos.

E o melhor é que, imagino, na esteira da genial criação, surgirão idéias ainda mais notáveis como, por exemplo, a do tíquete-propina, do passe-propina e do auxílio-propina, que facilitarão enormemente as relações entre as esferas publica e privada em território brasileiro.

Sonho mesmo com o dia em que, após anos de aprimoramento, o Estado estará apto a implantar a bolsa-propina para os excluídos das mamatas governamentais.

E então, sempre progredindo, talvez no futuro cheguemos ao ápice desse processo revolucionário: cunharemos a Propina Nova, única moeda no mundo cuja impressão será ilimitada, pois terá como lastro tão-somente a sem-vergonhice nacional.