Pelaincineracao

Há quem acredite que a internet, ao contrário do que normalmente se divulga, veio para atentar contra a liberdade de expressão. Isso porque acabou com a única função verdadeiramente louvável de nossos jornais e revistas: a de embrulhar peixes. Não aceito a hipótese por uma razão muito simples: homem antenado, o luso-açougueiro aqui da esquina de casa, por exemplo, substituiu o papel por monitores de computador, e o resultado é que o novo embrulho abrange muito mais mercadorias, além de influenciar positivamente em seu peso.

Foi graças a esse homem de visão — sem dúvida, um adepto das teorias de McLuhan — que, voltando de férias, tive a oportunidade de ler sobre os fatos políticos das últimas semanas, num pedaço de tela sujo de sangue — única forma de me aproximar dos meios impressos ultimamente, uma vez que substituí, há tempos, a leitura de jornais por placas de trânsito: o português é errado e as informações incertas do mesmo jeito, com a vantagem de não ser preciso ser assinante de um provedor.

Entusiasmado, soube que, em mais uma demonstração de celeridade ímpar, tão-logo se deu conta dos desmatamentos na Amazônia, em 2007, nosso governo fez uma reunião de emergência para discutir medidas que orientem o estudo de propostas de futuros encontros que proponham a realização de sondagens visando ao debate de iniciativas que procurem formar grupos de avaliação para estabelecer metas a serem seguidas pelos delegados de uma assembléia que gere, quem sabe, talvez, algum dia, idéias sobre o que fazer a respeito da questão.

Sei que os golpistas e as elites brancas de sempre, exigindo que o governo faça mais do que aquilo que é seu dever constitucional, como dar moradia, saúde, alimentação e trabalho a banqueiros, vão reclamar pelo fato de a medida ter saído só cinco anos após a posse do presidente.

Ora, não me alongando a rebater calúnias, digo apenas o óbvio: como o governo poderia tomar medidas contra o desmatamento de 2007, se só assumiu em 2003? Quando menos por amor a Descartes, seria preciso esperar quatro anos transcorrerem, tempo este necessário para que, primeiro, nossas autoridades se apercebessem de que a Amazônia faz parte do território nacional — ou alguém acha que com tanto mato é fácil se localizar por ali? — e, segundo, aguardassem que alguma notícia ruim sobre o desmatamento surdisse — mais uma prova de que este é um governo moderno e se livrou definitivamente de idéias comunistas ultrapassadas, como o planejamento das ações.

Assim, inspirado pela reconfortante eficiência de nossos gestores públicos, acabei por descobrir um artifício engenhoso para detonar a revolução educacional de que tanto o país necessita: o desmatamento de crianças e o aquecimento de analfabetos. Pensem bem: se brasileiros abnegados iniciassem a invadir escolas caindo aos pedaços para dar machadadas em crianças ou a entrar clandestinamente em asilos de velhinhos analfabetos para tocar fogo em suas dependências, dentro em pouco, no máximo cinco anos, o governo afinal perceberia a existência de um problema na Educação e, quiçá, na Previdência brasileiras.

Prevejo que alguns sujeitos ligados a valores afonsinos como os defensores dos direitos humanos insinuarão que, caso a política surta efeito, teremos exterminado crianças e idosos antes que consigam obter benefícios. Uma alegação, obviamente, das mais pancrácias. Para que é que temos uma eficiente política reprodutiva no país, que impede o acesso das pessoas a informações sobre métodos contraceptivos, além de restringir o aborto a casos extremos, como, por exemplo, aqueles em que os pais têm dinheiro para pagar por uma intervenção em clínica clandestina? Esperaríamos, portanto, apenas o tempo de mais uma geração nascer para a iniciativa pedagógica triunfar, ó gente sem espírito cívico!

Diante de tal perspectiva, conclamo: não percamos o momento histórico, concidadãos – ajamos o quanto antes. Esparta nos espreita, orgulhosa. O futuro do Brasil está em nossas patas.