Policiagramatical

— Aha! Mãos ao alto, boca fechada! Anda, meliante!
— Ma-mas o que… que foi que eu fiz, seu guarda?
— Você foi pego em flagrante cometendo um gerundismo, seu calhorda!
— É mentira, seu guarda. Eu juro que usei o futuro do presente!
— Nada disso, eu ouvi perfeitamente quando você falou “vai estar fazendo”, seu mentiroso!
— Não!
— Sim. E ainda por cima usou a primeira pessoa do plural: “nós vai”.
— Eu não usei ninguém! Eu agi sozinho, seu guarda, eu juro!
— Passa! Já pro camburão!
— Eu sou testemunha, seu guarda. Ele falou direito…
— Você também, boneca. Há um mês nós estamos acompanhando os passos de vocês. Os dois serão acusados de associação para o crime semântico, formação de tabuísmo e tráfico de redundâncias. Podem pegar de cinco a dez anos de escola.
— Mas a gente é apenas namorados, seu guarda! Não fizemos nada!
— Namorados?
— É!
— Não, sua burra, “namorada”. “A gente é namorada”. “Gente” é substantivo feminino e concorda no singular! Passa já pro camburão!
— A gente não fez por mal, seu guarda!
— Com “u” ou com “l”?
— Com… com…
— Tudo por conta de um errinho de português, seu guarda?
— Errinho? Nós temos gravações em que vocês aparecem infringindo a norma culta em inúmeras conversas telefônicas. Ao longo de dois meses incorreram nos delitos mais diversos, entre eles queísmos, barbarismos, silepses, solecismos e uma série de infrações à regência e à conjugação. Alguns são crimes hediondos, como o uso de expressões como “eu, enquanto pessoa” e palavras como “obstaculizar”. Passa!
— Tá falando com nós?
— “Conosco”, animal! Vira a mão!
— Ai! ai! ai! Não, seu guarda, a palmatória, não!
— Isso é violência policial! Nós tem os nossos direitos!
— “Nós temos”!
— O senhor também, claro.
— Uff… Tá, tá, vocês têm direito ao uso de um intelectual e podem consultar a gramática normativa para falar com a família. Agora, venham! Chega!
— Então é isso? Voz de prisão?
— Não, voz passiva: VOCÊS ESTÃO SENDO PRESOS POR MIM! Vamos! Andando!
— Tudo bem. Mas a gente pode pelo menos levar o doce que a gente não terminou de comer?
— Pra que vocês querem levar o musse? Nada disso. Deixem aí. Pra cadeia, já. Os três!
— Os três?
— Ué, seu guarda, por que o senhor tá se algemando e entrando aqui no camburão?
— É, o que significa isso?
— Significa que eu sou uma anta: “musse” é feminino. (gritando) Motorista! Toca pra cadeia!