Schiller

— E você faz o quê?
— Eu? Sou profissional da onomatopéia.
— Ahn?
— Onomatopéia. Eu trabalho com sons.
— Como assim?
— Assim. Fluct-pu.
— Hein?
— Fluct-pu. “Assim”. Também faço “talvez”, “todavia” e “contudo”, olha aí: plocting, blabunz e digdag.
— Tá tirando onda comigo, rapaz?
— Chuá, chuá.
— Olha que eu te bato, cara! Não tira onda comigo que eu te bato! Cê tá falando sério?
— Ô! Fiu! Seriíssimo.
— E isso dá dinheiro?
— Bem, schlup, não posso reclamar. O mercado vem crescendo nos últimos tempos, pei. Esse negócio de significante e significado tem perdido a sua força nas últimas décadas. A tendência do falante da língua moderno e progressista é substituir palavras por sons ligeiramente articulados, de maneira que tenho ganhado algum dinheiro, pluf.
— E você pode me dizer, por acaso, como é que isso funciona, hein? Dão dinheiro pra você fazer “umb”, “blum”, “fit”…? Você tá rindo de quê?
— Dessa sua última frase.
— “Dão dinheiro pra você”?
— Não: “umb”, “blum”, “fit”. Isso não faz o menor sentido. Se você queria dar um exemplo onomatopéico de significado rarefeito, poderia ter usado “islupt”, por exemplo.
— Zilupt?
— É você! Não me chama de zilupt, hein? “Islupt”, eu disse. Já “umb”, francamente… É coisa de selvagens.
— Ah, sei. Já “plocting” é de um sentido extraordinário, né? Deve, inclusive, ter sido usado por Wittgenstein!
— Saúde.
— Como?
— Não foi “uitszentain” que você disse?
— Wittgenstein, o filósofo!
— Ah, pensei que cê tinha proposto um brinde. Glopre.
— Vem cá, você pode me dizer, afinal, de uma vez por todas, como é que isso de inventar sons te dá dinheiro?
— Bom, em primeiro lugar sou muito requisitado para fazer letras de rock e axé. Também temos aumentado nossa presença, ronc, em congressos de surfistas e workshops de escritores brasileiros famosos. Em programas de auditório, prestamos um serviço de atendimento de urgência. Caso uma conversa enguice, nos chamam e nós fornecemos alguns sons com que continuar o bate-papo, jog. Ainda atuamos em reuniões familiares e confraternizações de final de ano. Ah, e fazemos pequenas traduções, como de Shakespeare, Schiller e Cervantes. Enfim, temos estudos que nos permitem imaginar que vamos decuplicar nossos lucros nas próximas, quérit, décadas.
— Caraca!
— “Caraca”? É tudo o que você tem a dizer?
— Tô muito espantado…
— Use “kraputz”, então. “Caraca”! Nossa, rapaz, você precisa melhorar, urgentemente, seu vocabulário!