Voltaire

Meu Voltaire sumiu. E não me refiro a um livro do satírico iluminista, pois não disponho de tempo para gastar com inânias como a leitura, a arte e a instrução. Preciso antes é de conhecimentos que me propiciem uma boa posição no atual mercado de trabalho, como um curso de tiro. Ou, talvez, de uma trepanação.

Tampouco se trata de um móvel que perdi. Eu e minha mulher entregamos os últimos que nos restavam em holocausto a São Balzac, na intenção de nossos credores. Não via a categoria tão feliz desde que FHC deixou a presidência.

Muito menos falo do animal de estimação de Ed Mort. Aqui em casa não temos ratos. Não porque as baratas os coloquem para correr, mas por puro instinto. Afinal, que viriam eles fazer na casa de dois adultos famintos quando podem ir a lugares mais tranqüilos, como o apartamento da vizinha, que só tem três gatos?

Não, o Voltaire a que aludo é simplesmente o ícone do filósofo que coloquei como fundo de tela em meu computador. Ao ligar a máquina esta manhã, não encontrei mais a estampa do escritor gaulês. A princípio, pensei que tinha ido dar sua caminhada matinal com Jonathan Swift, descer sua bengala na cabeça de Alexander Pope… Enfim, divertir-se com outros fundos de tela do bairro.

Por volta do meio-dia, no entanto, comecei a ficar preocupado, imaginando que, provavelmente aborrecido com a carência material de minha residência ou, pior, com a indigência intelectual do dono da mesma, houvesse empreendido uma viagem a Eldorado ou mesmo à casa do sábio professor Pangloss.

Às quatro da tarde, pensei pela primeira vez em suicídio. Talvez tivesse lido os jornais (que sempre escondi dele, por precaução) e, descobrindo em que se transformara a Revolução ou lendo um pouco da filosofia dos pensadores contemporâneos, tenha ingerido cicuta ou Dolly Light quente, pondo termo à vida.

Descartei a hipótese às seis horas, quando, após diversas pesquisas nos arquivos, não consegui encontrar seu cadáver em parte alguma do laptop. Passei a desconfiar, então, de seqüestro. Mas logo dispensei a idéia, por absolutamente ridícula. Afinal, quem, em pleno século XXI, reconheceria Voltaire?

Pensava assim, intrigado, quando me chegou o seguinte e-mail: “Voltér. Chuva, sol, ventofogo. ar. air. bombas. Sob minha posse está. Vou ter. Vou-te, r. Vovô Tê. Bolaquadrado no triângulo, vírgulas. Sim, o filósofo comigo. Pedrafolha. Chã-chão tronco, jamais. Exijo: recompensa. As mordaças da primavera no inverno outonal são tristes”.

Não veio assinado, mas pela beleza do estilo, pela pontuação eficaz, pelo sagaz uso de neologismos, pelos trocadilhos inteligentes, pela imensa capacidade de expressão, pela criatividade, pelo caráter inovador do texto, logo me dei conta de que o seqüestrador é algum escritor brasileiro da atualidade.

Como chegou a saber quem é Voltaire? Não tenho a mínima idéia. Seja como for, uso este espaço hoje para fazer um apelo público: por favor, devolva o refém. Não tenho dinheiro para o resgate, mas posso fazer um trato. Em troca do filósofo, dou a você toda a minha coleção de Marie Claire.