Jumento

De maneira simplista, podemos dizer que o platonismo valoriza a alma em detrimento do corpo. Donde se podem deduzir duas coisas: primeiro, que o cristianismo deve muito ao pensamento grego e, segundo, que Platão não deve ter conhecido a Juliana Paes.

Também minha família foi fortemente influenciada pelos helenos. Lembro, por exemplo, com carinho, das horas que o meu progenitor passou diante de um automóvel, tentando fazer com que eu entendesse dialeticamente a sumida diferença entre o carburador e o radiador. E, com um pouco menos de carinho, dos dias que passei trancado no quarto por ter, inadvertidamente, enchido de óleo este e de água aquele.

Procurou o homem de todas as maneiras me fazer decorar o nome de diferentes ferramentas e ensinar seu uso específico, e não teria obtido fracasso mais apodíctico se seu objetivo fosse lecionar literatura a escritores pós-modernos.

— Qual é essa?
— Uhm…
— Cha… cha…
— Chave?
— Chave! Isso! Chave, o quê? Chave…
— Chave… de braço!
— Chave inglesa! Chave inglesa! Será que você não aprende?
— Ué, como é que eu ia saber? Pelo sotaque?
— E esta? Não é possível que você não lembre. É o nome de um bicho.
— É…
— Sim?
— Gato!
— Não! Burro! Burro!
— Burro? Essa o senhor não me ensinou.
— Burro é você! Isso aqui é um macaco. Some daqui!

Como adepto da escola espartana, meu pai até hoje deve se arrepender de não ter seguido comigo o uso dos lacedemônios quando do nascimento de uma criança com problemas mentais — o que era evidentemente o meu caso.

Já minha mãe pertencia à escola ateniense, da linhagem de Diógenes, e ficava a seu encargo o ensino da filosofia moral. Moral, explico aos mais jovens, foi algo que existiu certa vez no Brasil, fez algum sucesso momentâneo e depois caiu em desuso.

Digo a vocês, cidadãos, que o aio Egas Moniz não teve mais firmeza do que aquela santa senhora. Gastou todos os recursos da retórica, desde Protágoras até Cola di Rienzo, na tentativa de fazer com que eu conseguisse distinguir os conceitos de bem e mal. Esforço que resultou debalde, pois a julgar por meu comportamento, alguém seria capaz de dizer que meu preceptor havia sido Nietzsche.

— Marconi Leal, que dinheiro é esse, Marconi Leal?
— Sabe que eu também não sei, mãe? Mudam tanto! Mas eu acho que é cruzeiro.
— Você entendeu muito bem! O que é que significa esse dinheiro?
— Ah, o dinheiro, a senhora sabe, é um produto cultural usado pra troca de…
— Você andou apostando de novo?
— Não.
— Andou, sim.
— Não andei.
— Andou.
— Não andei.
— Andou.
— Juro que não andei! Quer apostar?

Sempre recordo com nostalgia e sofrimento o falhanço educacional dos meus genitores. Desde domingo, no entanto, com mais sofrimento do que nostalgia, pois cometi a tolice de apostar com minha mulher que meu time(?), o Sport, ganharia do dela, o Internacional de Porto Alegre, pelo Brasileirão. E apesar de ter errado por meros cinco gols — o jogo foi 5×1 para o Inter —, a verdade é que perdi a aposta e esta semana fiquei encarregado de todos os serviços domésticos.

Assim, lamento terrivelmente a queda que tive diante da tentação espiritual. Mas muito mais não ter aprendido com meu pai a realizar tarefas práticas. Porque perder a alma e passar a eternidade no inferno sofrendo os castigos mais cruéis é coisa que posso suportar facilmente. Difícil mesmo seria enfrentar minha mulher brava.

Diante do que, pergunto a vocês: se acaso um desastrado, ao varrer estabanadamente a casa, tivesse conseguido derrubar e espatifar no chão o vaso de porcelana predileto de sua amada, conseguiria ele de alguma maneira colá-lo? Como?

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