Telefone

— Aí eu tiro meu sutiã…
— E aí, e aí?
— Aí eu tiro minha calcinha…
— Uhm… E aí?… E aí?…
— Aí eu boto meu pinto pra fora…
— Quê???
— Aí eu boto meu pinto pra fora e…
— Pinto? Que história de pinto é essa? Eu liguei pra transar com uma mulher!
— Que preconceito, seu bobo, o amor é livre!
— O amor pode até ser, minha senhora, mas sexo é pago! E eu tô pagando caro, não quero saber de pinto nenhum. Ou a senhora desenvolve um clitóris nos próximos segundos ou eu…
— Tudo bem, tudo bem. Não precisa se zangar. Vamos recomeçar. Bom, estamos no quarto. Meia-luz. Cortinas de veludo. Velas. Aí eu tiro minha saia…
— Sim?
— Desenrolo minha meia-calça beeeem devagarinho…
— Sim, sim?
— Ajeito com carinho o esparadrapo que saiu do lugar…
— Como?
— Eu tenho um furúnculo na bunda.
— Você é louca? Minha filha, será que você não pode simplesmente fazer a coisa tradicional: tira a calcinha, aí aparecem pêlos pubianos e um órgão sexual feminino, de preferência um que não tenha dentes, não solte penas nem seja todo verde com bolinhas roxas?!
— Tradicional? Sei. Tudo bem, tudo bem. Então, estamos deitados na cama. Lençóis de cetim. Lustre de cristal. Carpete azul. Eu tiro a roupa, fico totalmente nua…
— Tá.
— E começo a acariciar você por baixo da cueca…
— Ahn…
— Tiro a tua cueca delicadamente…
— Uhm…
— Aí aproximo a minha boca do teu sexo latejante…
— Ai… ai…
— Abro a boca, cheia de desejo…
— Vai! Vai! Vai!
— E grito: “Que nojo! Que nojo!”
— Como é que é???
— É que eu vejo uma barata voadora entrar pela janela nesse exato instante! Aí fico toda apavorada. E você, então… Bem, você…
— Eu te pego pelos cabelos.
— Isso! Quer dizer… não. Pelos cabelos?
— É. E te jogo de cabeça na parede, sua maluca! Doida varrida! Demente!
— Não, você não pode fazer isso!
— Não, é, sua abilolada?! Maníaca! E por quê? Posso saber?
— Porque eu sou careca!
— Car… Eu vou no Procon! (desliga)
— Ignorante. (suspira) É incrível como não se dá valor ao trabalho intelectual nesse país. Por isso tanta gente cai na vida e acaba virando escritora…